CL na Copa: Favorita ao título, Alemanha precisou se reinventar para chegar ao sucesso

EM BUSCA DO PENTA

Por Rodrigo Rebelo, RJ

Após a Copa de 2014 a Alemanha, que já era uma das maiores seleções de todos os tempos, conseguiu uma marca considerável: a goleada por 7 x 1 sobre o Brasil, na semifinal realizada no Mineirão, que se transformou no maior vexame da seleção brasileira na história das Copas do Mundo.

Agora, em 2018, os alemães chegam mais uma vez como favoritos ao título mundial. E o time que vai para a Rússia, ainda que seja muito parecido com aquele que amassou o Brasil, teve sua origem em um episódio que traumatizou — e muito — o futebol alemão.

Do fracasso ao sucesso

O ano era 2000. O futuro finalmente havia chegado, ainda que os carros não voassem, mas o futebol alemão não dava mostras de estar encarando bem os novos tempos. O grande exemplo disso foi a Eurocopa desse mesmo ano, onde a Alemanha foi eliminada na primeira fase, após uma vexatória campanha de duas derrotas, um empate e nenhuma vitória. Além desse desempenho pífio, a participação nas duas Copas anteriores também ficaram longe do esperado, com duas eliminações nas quartas de final – Bulgária em 1994 e Croácia em 1998. Nem o título europeu de 1996 foi o bastante para apagar o sinal de alerta, que já estava ligado e comprovando que muita coisa precisava mudar.

Os três principais pilares dessa reformulação foram:

– Investimento pesado nas categorias de base;

– Intercâmbio de ideias com países do exterior;

– Uma nova comissão técnica fixa, inicialmente liderada pelo ídolo Jürgen Klinsmann, que modernizou totalmente o estilo de jogo alemão.

As mudanças, claro, não vieram da noite para o dia. Tanto é que em 2002 a seleção alemã que conquistou o vice-campeonato, perdendo a final para o Brasil, era composta por medalhões já experientes e praticamente nenhum jovem destaque. O técnico Rudi Völler, estava longe de ser um gênio e, convenhamos, ter levado o time à decisão do mundial não era algo tão esperado assim.

Pouco depois, após mais um fracasso — dessa vez na Euro de 2004 — a comissão técnica foi inteiramente reformulada e esse novo padrão de jogo foi implementado. O eterno ídolo Jürgen Klinsmann assumiu o comando e teve como seu assistente Joachim Löw. A Copa de 2006, sediada na Alemanha, conferia aos donos da casa uma responsabilidade ainda maior, o de ter um bom desempenho frente à torcida. Ainda que o time não estivesse novamente tão fortalecido, o papel na competição foi bom, mostrando um padrão de jogo interessante e caindo apenas na semifinal, para a Itália que viria a se sagrar campeã.

Mas antes disso o primeiro passo já havia sido dado nas divisões de base. Em uma ação conjunta, 36 times alemães investiram pesado na formação de novos atletas. Os responsáveis pelo futebol no país, juntando os mais diferentes setores. Segundo Wolfgang Niersbach, presidente da Federação Alemã de Futebol até 2015, “Apenas a Federação Alemã de Futebol tem investido 20 milhões de Euros anuais destinados à promoção de talentos no sentido mais amplo da palavra. Em todas as categorias de base, uma rede nacional de 366 centros de formação de atletas foi criado, usando principalmente a infraestrutura dos clubes locais, com instalações acima da média. Nesses locais, 14 mil jovens com idades entre 11 e 14 anos recebem aulas extras por meio de uma sessão de treinamento de duas horas semanais fornecidas por profissionais da federação. Isso além do treinamento que eles fazem em seus respectivos clubes.

Ou seja, nomes como Thomas Müller, Toni Kroos, Manuel Neuer, Mesut Özil, Timo Werner, Mats Hummels e dezenas de outros excelentes jogadores começaram a ser formados de uma forma diferenciada, após essa série de fracassos retumbantes. O governo alemão, a Federação, os clubes e todos os envolvidos com o futebol assumiram o compromisso de fazer o país novamente uma potência do futebol. E com seriedade e muito trabalho, conseguiram alcançar o objetivo.

O caminho até a Copa da Rússia

Considerada favorita ao título mundial desde as eliminatórias, a Alemanha comprovou o que todos pensavam a respeito dela. Com uma impecável campanha, os alemães terminaram os 10 jogos com 100% de aproveitamento, marcando 43 gols e sofrendo apenas três. Um desempenho nunca antes alcançado. Entretanto, apesar desses números extraordinários, nenhum atleta do time de Joachim Löw figurou na lista de artilheiros, o que se comprova o potencial coletivo e a consistência tática.

A classificação veio no penúltimo jogo das eliminatórias, contra a Irlanda do Norte. Os atuais campeões do mundo, que já lideravam seu grupo com tranquilidade, precisavam apenas de um empate contra os irlandeses para carimbar o passaporte para a Rússia. O placar de 3 a 1 reflete exatamente o que foi o confronto: um contundente domínio sem dar qualquer possibilidade para os rivais.

O técnico

Com a recente extensão do seu contrato, Joachim Löw passa a ser um dos treinadores mais longevos da história da seleção alemã e o mais vitorioso. Ele está no comando do time desde 2006 e seu vínculo, que ia até o final da Euro 2020, agora irá até a Copa do Catar, em 2022.

Discreto, com uma personalidade tranquila, Löw passa longe das badalações e muitas vezes é mais lembrado pelas suas bizarrices pessoais à beira do gramado. Mesmo comandando um time vitorioso e que desempenha um futebol de altíssimo nível, poucas vezes é lembrado como um dos principais nomes da sua função no futebol mundial, mas isso não parece abalá-lo nem um pouco.

Antes de aceitar o convite de Jürgen Klinsmann para ser seu auxiliar na seleção, Löw nunca havia tido destaque nos times do país. Ganhou uma Copa da Alemanha, em 1997, com o Stuttgart, e basicamente ficou nisso. Já na seleção e participando de toda aquela reestruturação que o futebol alemão vivia, alguns chegaram a apontar que ele era a peça fundamental no bom trabalho de Klinsmann, e após a saída do eterno centroavante do comando da equipe – após a eliminação para a Itália na semifinal da Copa de 2006 – ele passou a ser o homem por trás das atuações cada vez melhores da Seleção.

Vale dizer que foi Klinsmann quem abriu mão do cargo. A federação alemã estava satisfeita com o trabalho e gostaria que ele seguisse na função. Löw, então, manteve tudo como vinha sendo feito e, num primeiro momento, não implementou mudanças drásticas. Isso evitou uma desconfiança inicial por parte da imprensa e da torcida e o deu maior tranquilidade para adaptar-se no novo cargo. Porém, pouco a pouco ele foi imprimindo as suas visões e promoveu mudanças no padrão tático da equipe. Enquanto Klinsmann era um pouco mais conservador, Joachim Löw deu uma cara um pouco mais ofensiva à Alemanha, sem deixar de lado a organização tática que é característica do futebol do país desde que o mundo é mundo. O resultado começou a ser visto em 2010, quando muitos se surpreenderam com aquela “nova Alemanha” e eles só foram parados pela Espanha, que acabou sagrando-se campeã na África do Sul.

Podemos concluir, então, que Löw sempre foi um técnico mediano, mas que estava na hora certa, no lugar certo. A mudança de mentalidade que tomou conta do futebol alemão o beneficiou a fazer um trabalho de longo prazo, com integração entre seleção e clubes, e, de lá pra cá, a Alemanha voltou a ser favorita em todo e qualquer confronto ou campeonato que disputa.

Os convocados

Quatro anos se passaram desde o tetracampeonato alemão e a seleção chegará renovada na Rússia. O mundo conheceu os 23 jogadores chamados pelo técnico Joachim Löw e apenas nove atletas são remanescentes da Copa de 2014 — sendo que Mario Götze, autor do gol do título no Maracanã, não está nessa lista.

Goleiros: Kevin Trapp (Paris Saint-Germain-FRA), Manuel Neuer (Bayern de Munique-ALE) e Marc-André Ter Stegen (Barcelona-ESP)

Defensores: Antonio Rudiger (Chelsea-ING), Jerome Boateng (Bayern de Munique-ALE), Jonas Hector (Colonia-ALE),  Joshua Kimmich (Bayern de Munique-ALE), Marvin Plattenhardt (Hertha Berlim-ALE), Mats Hummels (Bayern de Munique-ALE), Matthias Ginter (Borussia Mönchengladbach-ALE) e Niklas Sule (Bayern de Munique-ALE)

Meio-campistas: Ilkay Gundogan (Manchester City-ING), Julian Brandt (Bayer Leverkusen-ALE), Julian Draxler (Paris Saint-Germain-FRA), Leon Goretzka (Schalke 04-ALE), Mesut Ozil (Arsenal-ING), Sami Khedira (Juventus-ITA), Sebastian Rudy (Bayern de Munique-ALE) e Toni Kroos (Real Madrid-ESP)

Atacantes: Marco Reus (Borussia Dortmund-ALE), Mario Gomez (Stuttgart-ALE), Thomas Müller (Bayern de Munique-ALE) e Timo Werner (RB Leipzig-ALE)

A convocação foi  polêmica pela ausência de Sané, do Manchester City. Já pelo lado positivo, Manuel Neuer e Marco Reus, ambos retornando de lesão, figuram na lista. 

Assim como ocorreu em 2014, as laterais são o ponto sensível desse time – tanto que até as oitavas de final, a seleção ia a campo com quatro zagueiros de origem. Somente com a lesão de Shkodran Mustafi (zagueiro que pode atuar improvisado na direita), o lendário Philipp Lahm voltou a atuar na lateral, o que melhorou significativamente o desempenho do time. O mesmo Mustafi foi outra surpresa nessa convocação, por ter ficado fora da lista. Dessa forma, o único lateral direito de origem que foi chamado é Joshua Kimmich, um dos melhores da posição no mundo, mas que não conta com substitutos, de origem. Pelo lado esquerdo, Jonas Hector e Marvin Plattenhardt são os nomes da vez, mas estão longe de serem jogadores acima da média.

Quem pode se beneficiar com essa ausência de laterais direitos, é o meia Sebastian Rudy. Em um meio campo tão povoado e com bons jogadores, ele dificilmente terá espaço entre os titulares, mas sua facilidade de atuar improvisado como lateral, o que ele já fez no Hoffenheim e na própria Seleção, pode garantir que ele seja utilizado ao longo da competição.

A primeira fase e o que esperar da Alemanha na Copa

Cabeça de chave do Grupo F, a Alemanha não deve encontrar maiores dificuldades para se classificar na primeira fase, provavelmente na primeira colocação. Seus adversários são Coreia do Sul, México e Suécia e, a não ser que a zebra resolva passear na Rússia, os alemães terão uma primeira fase tranquila, que os fará chegar ainda com mais moral nos confrontos eliminatórios.

Projetando os possíveis confrontos da fase seguinte, o grupo da Alemanha cruza com o do Brasil nas oitavas de final. Sim, o confronto mais temido pelos brasileiros pode ocorrer já nas oitavas. Pra isso, basta que os alemães sejam os primeiros do seu grupo e o Brasil tropece, ficando na segunda colocação do Grupo E. O cenário é pouco provável, visto que a seleção brasileira também é uma das favoritas ao título e a ficar na liderança na primeira fase, mas ele existe. As outras seleções possíveis são Sérvia, Suiça e Costa Rica, o que deixaria a seleção alemã como franca favorita a se classificar para as quartas de final.

Apesar de toda essa virtual superioridade, os jogadores não se deixam iludir. E a derrota para o Brasil, por 1 a 0, no amistoso realizado em março desse ano, pode ter sido um combustível a mais para os alemães. Tanto é que Toni Kroos, meia do Real Madrid e um dos principais nomes do elenco, foi enfático: “Para tirar algo positivo dessa partida, dá para dizer que nós melhoramos nos últimos minutos do jogo, mas o saldo foi negativo, e os problemas do nosso time ficaram escancarados. O Brasil nos mostrou que não somos tão bons quanto todos dizem. Ou, pelo menos, o que alguns de nós talvez possa achar que somos.

A seleção alemã detinha uma sequência de 22 jogos de invencibilidade. Uma derrota dessas, ainda que por um placar magro, para outra seleção considerada favorita, pode ser o suficiente para fincar ainda mais os pés no chão e mostrar que, independente do favoritismo e da gigantesca qualidade técnica, é preciso estar atento durante os 90 minutos de todos os jogos para conseguir vitórias e o título. A Copa do Mundo é uma competição de tiro curto, onde não há tempo e espaço para recuperação. Os alemães perderam na hora certa, para o adversário certo, e esse jogo fará com que cheguem mais concentrados e focados no mundial.

A grande verdade é que, independente do adversário, a Alemanha tem plenas condições de sair vitoriosa em qualquer confronto. Ela é, de longe, uma das maiores favoritas a conquistar o título mundial e dificilmente será parada antes da fase semifinal. Alguém será capaz de deter Joachim Löw e seus 23 convocados?

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*