CL na Copa: Inglaterra, ninguém é campeão por acaso!

Por Diego Borges, PE

A cada edição de Copa do Mundo, o discurso de que a Inglaterra tem uma seleção ‘fracassada’ e ‘sem peso’ se reforça, passando cada vez mais do campo falacioso para se estabelecer como uma das maiores pós-verdades do futebol mundial – até mesmo para grande parte dos torcedores ingleses. De fato, o peso de ser a seleção campeã do mundo com o menor número de títulos relevantes e a soma de eliminações vexatórias dão argumentos suficientes para a construção desse pensamento. Entretanto, quem levanta qualquer taça ao menos uma vez na vida, não perde jamais a motivação para repetir o gesto. E a esquadra Three Lions chega à Rússia renovada, com uma geração de jovens com grande potencial para resgatar o devido respeito ao país fundador do futebol.

“Help! I need somebody”
Mas antes de beber a vodka, é preciso dar um gole na caipirinha – para esquecer, claro. No grupo da morte, contra Costa Rica, Uruguai e Itália, os ingleses terminaram em último lugar. Eliminação na primeira fase, que não acontecia desde 1958, na Suécia. E o vexame seguiu. Na Eurocopa, mais uma queda dura. Depois de capengar num grupo contra Eslováquia, Rússia (dois empates) e País de Gales (vitória), veio a derrota nas oitavas de final para a surpreendente Islândia. Mesmo com Rooney abrindo o placar logo aos quatro minutos de jogo, a virada chegou ainda aos 19 da primeira etapa e o time não reagiu.

Após o apito final, o comunicado da saída do técnico Roy Hodgson pôs fim ao ciclo decepcionante, iniciado em 2012. A queda se torna ainda mais emblemática quando sob o viés do contexto histórico. Apenas uma semana antes da derrota para a Islândia, a maioria da população britânica havia votado a favor pela saída da União Europeia. Brexit na economia e na bola. Como se não bastasse, o substituto no cargo, Sam Allardyce comandou uma única partida na estreia das Eliminatórias e foi demitido dois meses após o acerto, envolvido em um escândalo de corrupção na venda de atletas. Os ingleses precisavam de ajuda.

“Put out the fire. Don’t look past my shoulder”

(Crédito: TheFA.com/Divulgação – Gareth Southgate assumiu o comando e foi efetivado após escândalo do seu antecessor)

A solução veio das categorias de base. Zagueiro nas Copas de 1998 e 2002, Gareth Southgate deixou a equipe sub-21 e assumiu o comando do English Team de forma interina por quatro jogos, mas o rendimento foi além do esperado. O 3 a 0 sobre a Escócia e o empate contra a Espanha em amistoso selaram a efetivação. Daí em diante, o time deslanchou. Boa parte pela sorte de cair em uma chave sem outros medalhões europeus na Eliminatória, mas o papel de protagonista foi exercido com sucesso. Em dez jogos, foram oito vitórias e dois empates, com 18 gols marcados e apenas três sofridos, terminando invicta ao lado de Alemanha, Bélgica e Espanha.

Southgate tem apenas duas derrotas em 16 jogos no comando da equipe principal. Os únicos revezes aconteceram contra Alemanha (1 a 0) e França (3 a 2). Porém vale citar também os empates sem gols com a própria Alemanha e o Brasil no final de 2017 e o bom início de 2018, vencendo a Holanda e empatando com a Itália, todos em amistosos.

“But what’s puzzling you is the nature of my game…”

Em pouco tempo de comando, Gareth Southgate não apenas apagou o incêndio como deu uma forma ao time. Mais que isso. Se de um lado o “adeus” de Rooney deixa uma imensa lacuna, do outro, foi dado início ao processo de renovação da seleção, que por muito tempo foi alvo das maiores críticas – e com razão. O treinador soube aproveitar com êxito os novos talentos garimpados na concorrida Premiere League, onde a sede por montar super elencos tolheu por longos anos a formação de craques na ‘Terra da Rainha’.

(Crédito: TheFA.com/Divulgação – Gareth Southgate mantém um bom relacionamento com os atletas, sobretudo os oriundos das seleções de base)

“…Because maybe you’re gonna be the one that saves me”

A Inglaterra chega à Rússia com a sua geração de maior esperança por conquistas desde o time de 1998 e 2002, quando Beckham, Owen, Gerrard e muitos outros craques expoentes apavoravam em competições nacionais, mas não conseguiram traduzir o mesmo aproveitamento em torneios de seleções. Hoje, entre os principais nomes podemos destacar além de Rashford (21 anos), do Manchester United, o trio do Tottenham: Dele Alli (22 anos, eleito melhor jogador jovem da Premier), Eric Dier (24 anos) e Harry Kane (24 anos).


(Crédito: Divulgação/FIFA – Harry Kane foi artilheiro duas temporadas consecutivas na Premiere League)

No melhor estilo centroavante inglês, Harry Kane representa a maior esperança de gols na equipe. A joia do Tottenham só não conseguiu o posto de artilheiro da Premier League pela terceira edição consecutiva porque nesta temporada surgiu o maravilhoso futebol de um egípcio vestindo a camisa do Liverpool, chamado Salah. Apesar disso, os 30 gols anotados por Kane na liga nacional, somados aos sete pela Champions League e mais quatro na FA Cup, fizeram o números do jovem alcançar a expressiva marca de 41 gols marcados em 48 partidas. Pela Seleção, o bom desempenho se confirma, com 12 gols em 23 jogos.

Convocação oficial


Goleiros: Jordan Pickford (Everton), Jack Butland (Stoke City) e Nick Pope (Burnley);

Defensores: Alexander-Arnold (Liverpool), Cahill (Chelsea), Delph, Stones e Walker (Manchester City), Phil Jones e Ashley Young (Manchester United), Danny Rose e Trippier (Tottenham) e Harry Maguire (Leicester);

Meio-campo: Dier e Dele Alli (Tottenham), Jordan Henderson (Liverpool), Lingard (Manchester United) e Loftus-Cheek (Crystal Palace);

Ataque: Raheem Sterling (Manchester City), Marcus Rashford (Manchester United), Harry Kane (Tottenham), Jamie Vardy (Leicester) e Danny Welbeck (Arsenal).

“We shall defend our island whatever the cost may be”

“Golden generations looking to shine”, essa é a frase que a FIFA escolheu para descrever os quatro times que disputarão duas vagas no Grupo G da Copa, que conta ainda com Bélgica, Tunísia e Panamá.

Contra os Belgas haverá um encontro de ‘gerações douradas’ que ainda não vislumbraram o brilho do ouro, mas têm potencial. No histórico de confrontos entre as equipes, a Inglaterra tem absoluta vantagem com apenas uma derrota em 21 jogos. No entanto, o fato de muitos atletas da Bélgica jogarem na Premier League pode trazer um ponto favorável aos ‘Diabos Vermelhos’ na briga pela classificação na liderança.

A Copa da Rússia marcará também o segundo encontro inglês com a Tunísia. Em 1998, na França, uma vitória simples por 2 a 0. Quanto ao Panamá apesar de ser estreante no torneio, vale a ressalva da Costa Rica como exemplo na última Copa, quando a Seleção vinda da Concacaf desbancou três campeões mundiais, inclusive o time da Rainha.

“When the tigers broke free”

Seria irresponsável escrever sobre a expectativa inglesa na Copa da Rússia, sem sequer citar o contexto histórico e social em que os países estão inseridos, sobretudo nos últimos meses que precedem a Copa, ainda que de maneira resumida – porém necessária. Não é preciso ser historiador para saber que Inglaterra e Rússia são potências mundiais que encabeçam a briga pelo protagonismo cultural e econômico na Europa. E após as duas grandes guerras, a disputa alcançou o auge nos tempos de Guerra Fria, por quase cinco décadas.

Dito isso, é importante relembrar um episódio importante, digno de roteiro dos filmes de James Bond, na saga britânica do agente 007. Em março deste ano, um ex-espião russo, acusado de colaborar com a Inglaterra no período de Guerra Fria, morreu envenenado junto com sua filha. A substância utilizada até então é desconhecida. O inquérito britânico acusou Putin de ser o responsável pelo crime. Em resposta, o presidente russo e ex-espião da KGB (agência secreta soviética) expulsou 23 diplomatas britânicos do território. Desde então, as relações se tornaram ainda mais minuciosas.

Aliado a isso, ainda há o potencial – e quase inevitável – choque entre dois dos grupos de comportamento mais violento entre torcidas relacionadas ao futebol. Do lado britânico, os Hooligans e todo o seu histórico de conflitos que gerou até a expulsão dos clubes ingleses em competições internacionais. Do outro, a xenofobia forte dos russos mais conservadores e fiéis à cultura soviética, destilando racismo e homofobia sem distinção. Tudo isso faz com que o alerta da delegação inglesa seja ligado no país continental.

 

Músicas

Beatles – Help!

The Who – Baba O’Riley

The Rolling Stones – Sympathy For The Devil

Oasis – Wonderwall

Iron Maiden – Aces High

Pink Floyd – When the tigers broke free

 

Fontes: Gazeta Esportiva, Globoesporte.com, Fifa, IG, ESPN e Trivela.

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