CL na Copa: Irã, pontuar é possível

Foto: Federação Iraniana
Por Vitor Aguiar, PE

Jamais poderemos dizer que futebol e política estão dissociados e o Irã é prova viva disso. Pelos estádios russos, durante os jogos do Irã, vamos ver muito mais que a bandeira nacional. Os situacionistas vão empunhar a bandeira do regime atual, enquanto os opositores do governo islâmico levam bandeiras do Exército Revolucionário, o Pasdaran. A cultura de futebol político no Irã já vem dos anos 90.

Em 1997, após dois empates e a classificação para a Copa da França pelo gol qualificado contra a Austrália, a festa de comemoração da torcida rapidamente se tornou um protesto contra o Pasdaran e seu braço paramilitar, o Basij. A situação oposta aconteceu em 2001, após perder para o Bahrein por 3 a 1 e ficar fora da Copa do Japão e Coréia, a torcida saiu em protesto contra aquele jogo, que diziam ter sido entregue, naquilo que acabou se tornando um protesto político contra o governo autoritário e teocrático.

Por fim, em 2009, no empate em 1 a 1 com a Coréia do Sul, que culminou com a não classificação para a Copa da África do Sul, sete jogadores atuaram com pulseiras verdes, em apoio ao Movimento Verde Iraniano, que questionava as eleições que reelegeram Ahmadinejad naquele mesmo ano. Curiosamente, nenhum dos sete voltaram a defender a seleção iraniana. Enquanto se fala em banimento por parte da federação, a imprensa controlada pelo governo anunciou que os sete se aposentaram das carreiras internacionais.

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Carlos Queiroz, português nascido em Moçambique, pode estar à frente de seu último desafio na carreira. O ex-comandante de Sporting e Real Madrid chega a sua quarta Copa depois de comandar a África do Sul em 2002, Portugal em 2010 e Irã em 2014. Na seleção lusa o comandante substituiu Scolari, passou dois anos, foi eliminado nas oitavas da Copa da África, demitido e substituído pelo ex-treinador do Cruzeiro, Paulo Bento. O técnico já declarou considerar a aposentadoria após esse Mundial. Mas antes de terminar a carreira, ele tem uma difícil missão com o Irã.

Os asiáticos chegam para sua quinta Copa do Mundo, pela primeira vez com duas participações seguidas. O Time Melli disputou os mundiais de 1978, 1998, 2006 e 2014, não tendo sequer participado das eliminatórias em 82 e 86 por se recusar a mandar seus jogos em campo neutro durante conflitos bélicos no país. Nas quatro participações até agora, o Irã nunca passou da primeira fase, somando doze jogos, sendo uma vitória, três empates e oito derrotas, com sete gols marcados e 22 sofridos. Essa única vitória iraniana foi um 2 a 1 sobre os Estados Unidos, em Lyon, na Copa de 1998.

Nesse ano, porém, os iranianos têm motivos para ser esperançosos sobre uma vitória. Nas eliminatórias asiáticas, a seleção venceu 12 jogos, empatou outros seis e terminou sua campanha de maneira invicta, na liderança do grupo. Foram 36 gols pró e 5 contra. Além disso, o Irã é a melhor seleção asiática no ranking da FIFA, na 36ª posição. Por outro lado, na última Copa Asiática, em 2015, na Austrália, a equipe sofreu uma eliminação nos pênaltis para a limitada seleção iraquiana.

Em 2018, o Irã está no Grupo B da Copa com duas seleções que nunca enfrentou antes pelo torneio da FIFA, Marrocos e Espanha. Além delas, completa o grupo uma seleção que venceu o Irã por 2 a 0 na Copa de 2006 e é terra de seu treinador. Os deuses da bola cruzaram os caminhos de Portugal e de Carlos Queiroz de novo, oito anos após sua demissão. O primeiro jogo será contra os marroquinos já no dia 15/06, segundo dia de Copa, o confronto contra a Espanha ocorrem em 20/06 e a participação na fase de grupos termina em 25/06, contra Portugal.

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O Irã já tem, por natureza, poucos jogadores atuando fora do país, são pouco mais de 60, segundo o Soccerway. Nas maiores ligas do mundo, o número cai ainda mais, são oito jogadores entre as primeiras divisões de Holanda, Rússia, Portugal e Estados Unidos, e desses, apenas seis vêm frequentando a seleção nacional.

A seleção-base hoje é formada por Beiranvand (Persepolis/Irã); Rezaeian (Oostende/Belgica), Montazeri (Umm-Salal/Catar), Khanzadeh (Padideh/Irã) e Mohammadi (Akhmat Grozny/Rússia); Shojaei (AEK/Grécia), Hajsafi (Olympiacos/Grécia) e Amiri (Persepolis/Irã); Jahanbakhsh (AZ/Holanda), Ansarifard (Olympiacos) e Ghoochannejhad (Heerenveen/Holanda). Desses, apenas o zagueiro Montazeri, os meias Shojaei, Hajsafi e o trio de ataque estiveram na última Copa do Mundo. Além disso, apenas Shojaei disputou o mundial de 2006.

Na atual seleção iraniana, o jogador mais experiente é Jalal Hosseini. O defensor do Persepolis estreou na equipe nacional em 2007 e já fez 114 jogos, além de ter marcado oito gols. Atualmente ele é reserva e o quarto jogador com mais partidas na história da sua seleção, muito atrás, porém, dos três primeiros colocados, com 151, 149 e 127 jogos. Outro jogador também no top-10 é o meia titular Hajsafi. Ele tem 91 jogos e seis gols, sendo o sétimo com mais partidas pela seleção, na qual estreou em 2008, e o primeiro com menos de cem.

Quanto aos goleiros, Beiranvand está a oito jogos de se tornar o quinto com mais jogos pelo Irã. Hoje ele tem 20 e, se for titular em todos os jogos e o Irã não passar de fase, iguala a marca do atual quinto em 06 de setembro, quando Irã e Brasil se enfrentarão em Teerã. No quesito artilharia, três dos maiores da história da seleção ainda atuam, com foco para o reserva Azmoun, do Rubin Kazan, que estreou há quatro anos e já marcou 23 gols em 31 jogos, sendo o quinto maior artilheiro do Irã e o com melhor média de gols, 0,74 por jogo. Ainda no top-10 estão os titulares Ghoochannejhad e Ansarifard oitavo e nono, respectivamente, com 17 e 16 gols.

Agora, como diria o Caetano Veloso, “esse papo meu tá qualquer coisa e você tá pra lá de Teerã”. Então esse é o Irã que chega em 2018. Fica atento nos jogos da equipe asiática. Em 15 de junho, Irã x Marrocos; em 20 de junho, Irã x Espanha; e em 25 de junho, Irã x Portugal; além do amistoso em 06 de setembro, Irã x Brasil.

Fontes: Washington PostEconomistNY Daily NewsDiário de Notícias, Federação Iraniana Soccerway.

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