CL na Copa: Uruguai muito além da sua estrelada dupla de ataque

A incessante busca pelo Tri mundial da Celeste Olímpica

Festa uruguaia com a vaga nas semifinais da Copa de 2010 (Foto: EFE)
Por Wagner Ponce, Montevidéu

Com um ataque estrelado, boas revelações e um dos treinadores mais longevos da atualidade, a seleção uruguaia parte para a Copa da Rússia muito mais confiante do que nas edições anteriores, depois de se classificar para o Mundial sem muitos sustos nas Eliminatórias Sul-Americanas.

Quem é o Uruguai?

São pouco mais de 3 milhões de habitantes e um campeonato que não se destaca dentro do continente, tanto que a sua divisão de acesso tem ares muito próximos ao de campeonatos amadores. Seria difícil imaginar que mesmo após boas campanhas nos dois últimos mundiais, a Celeste seria capaz de conseguir emplacar uma nova geração de bons jogadores. Surpreendentemente e indo contra todos os prognósticos, eles surgiram, e um grupo de ótimas revelações já desfila seu futebol pelos gramados mundo afora, chega com muita força, e boa rodagem para a disputa do Mundial.

A própria campanha das equipes do país competição desse ano da Libertadores da América serve para ilustrar a atual fase do futebol do país. Com orçamentos muito abaixo dos vizinhos, os clubes uruguaios perdem muito cedo suas revelações para a Argentina e o Brasil, isso quando logo cedo os atletas não se transferem para a Europa, transformando o país num grande formador de talentos.

O que pode soar de forma negativa, tem ajudado a elevar o grau de experiência da seleção uruguaia. Um bom exemplo é zagueiro José Gimenez, que estreou como profissional no Danúbio aos 17 anos de idade, fez apenas uma temporada e aos 18 anos já era jogador do Atlético de Madrid e, desde então, segue há muito tempo como titular no time colchonero.

José Giménez é uma das grandes revelações do Uruguai (Foto: Divulgação/AUF)

Crise no futebol do país

Uma grande crise institucional na federação de futebol do país colocou jogadores e dirigentes do esporte em lados opostos durante a reta final das eliminatórias. Além de uma grave que parou o campeonato nacional, mais de 700 jogadores, incluindo atletas de renome da seleção, assinaram uma carta enviada à AUF (Associação Uruguaia de Futebol) proibindo que os direitos de imagem dos jogadores fossem utilizados sem uma negociação prévia. Esse movimento, chamando “Más Unidos que Nunca” (MUQN) também pede que nenhum novo acordo seja assinado para exploração de direitos de imagem. Essas atitudes foram uma mensagem direta contra a Tenfield, empresa que detém os direitos de transmissão do campeonato uruguaio e da seleção, e a Mutual Uruguaia de Futebolistas Profissionais (MUFP), sindicato dos jogadores, favorável por uma renovação dos direitos de transmissão até 2032.

Más Unidos Que Nunca Uruguai greve (Foto: Divulgação/@MUQN_UY)

“Obrigado aos jogadores da seleção por lembrar dos mais relegados” #jogadoresdaB #MaisUnidosQueNunca”

Segundo o MUQN, os valores repassados aos clubes e jogadores são irrisórios, algo que desvaloriza o futebol do país e impede que ele se desenvolva. Os jogadores da Celeste também protestam contra os valores repassados no acordo da AUF com a Puma, fornecedora de material esportivo da seleção uruguaia. Uma das medidas de protesto é não dar entrevistas para nenhum veículo do grupo Tenfield. Os membros do Movimento também exigiram que a Federação pare de usar a imagens dos atletas até que um novo acordo seja feito, já que em dezembro de 2016, a Mutual rescindiu o acordo de cessão de direitos unilateralmente, e agora eles alegam que suas imagens estão sendo usadas sem que eles recebam.

Suárez e Godín se manifestando antes da partida entre Barcelona e Atlético de Madrid na temporada 2016/2017 (Foto: Reprodução / twitter @luissuarez9

Poucas exigências foram atendidas e a insatisfação com a AUF ainda é grande, assim como com a empresa dona dos direitos das transmissões de TV. O Campeonato Uruguaio retornou normalmente e os jogadores continuam com a sensação de que nada foi feito. Os clubes, também prejudicados diretamente com esses repasses financeiros abaixo dos valores ideais, se mantêm numa posição completamente passiva em relação às decisões da Federação. Tanto que a temporada 2018 está sendo disputada com um clube a menos, o El Tanque Sisley, time pequeno da cidade de Montevidéu, não conseguiu pagar uma dívida equivalente a 357 mil dólares, relativa à temporada de 2017 e foi excluído da competição. O que deixou jogadores e comissão técnica sem tempo hábil para conseguirem se recolocar em outros times para a disputa, visto que a decisão aconteceu na véspera da primeira rodada do torneio.

Como chegou à Copa?

A campanha nas Eliminatórias para a Copa do Mundo trouxe muito otimismo para a Celeste Olímpica. Foi a primeira vez desde a Copa de 90 que os uruguaios não precisaram passar pela tão temida repescagem. Classificação antecipada, segundo lugar garantido e um ótimo futebol apresentado, não só credenciou nossos vizinhos entre as seleções que podem assustar, como encheu seu povo de confiança na busca pelo tri campeonato. Foram nove vitórias em dezoito jogos, somando um total de 31 pontos e ficando com a segunda posição.

Tabela final das eliminatórias sul-americanas (Imagem: Reprodução/Google)

Vale lembrar que a seleção uruguaia não venceu nem o Brasil e nem a Argentina em seus confrontos no torneio. Algo que pode servir como alerta para os analistas, já que isso pode mostrar certa fragilidade ou excesso de cautela quando está à frente de uma Seleção com uma proposta de jogo mais ofensiva.

Enquanto isso no Uruguai, a segunda colocação elevou o clima entre imprensa e fãs de futebol, que não escondem o otimismo por uma conquista após 68 anos. Para muitos no país, essa é a melhor seleção do país desde a Copa 70, isso comparada, inclusive, com a de 2010.

Os destaques

Se existe excesso de confiança depositado nessa equipe, isso não acontece apenas por ter em seu elenco dois dos maiores atacantes do futebol mundial, mas muito pela forma como existe um time muito organizado por trás desses nomes. É lógico que não se pode tirar o destaque de jogadores com o peso de Suarez e Cavani, mas tê-los dentro de um conjunto bem definido em campo, pode fazer com que a Celeste chega mais próxima do seu sonho.

A temporada foi excelente para as grandes estrelas da Seleção, mesmo que não tenham conseguido avançar para as finais de Champions League. Somando os gols do Campeonato Francês, Champions e seleção uruguaia, Edinson Cavani balançou as redes 48 vezes, enquanto seu compatriota Luis Suárez marcou em 31 oportunidades e ainda foi o segundo jogador da Liga Espanhola com mais passes para gol, ficando atrás apenas de Lionel Messi.

Suárez e Cavani comemorando mais um gol uruguaio nas eliminatórias (Foto: Reprodução/twitter AUF)

Outra dupla que também merece destaque é composta pelos zagueiros Diego Godín e José Giménez, titulares da Seleção e do Atlético de Madrid. Formam uma das melhores e mais entrosadas defesas do Mundial da Rússia. Com muita imposição física, qualidade no jogo aéreo e técnica, eles são a segurança necessária que Óscar Tabárez precisa para organizar seu time.  Giménez tem apenas 23 anos, mas já é homem de confiança de Diego Simeone, comandante colchonero. No meio de campo,  Nahitan Nández, 22 anos, do Boca Juniors e Rodrigo Bentancur, 20 anos,  da Juventus, ajudam a formar a espinha dorsal do time, que ainda conta com o experiente goleiro Fernando Muslera, titular absoluto do Galatasaray.

O Treinador

O veterano Óscar Tabárez é conhecido como o grande maestro do Uruguai. Aos 71 anos de idade, o técnico segue para a sua quarta Copa do Mundo (90, 2010, 2014 e 2018), depois de tornar-se o comandante com o maior número de jogos à frente de uma Seleção (173 jogos), estando há mais de 11 anos no cargo. Tabárez é unânime, tanto que sua permanência já é especulada para o próximo ciclo após a Rússia, independente dos rumores sobre sua saúde — é sabido que o treinador sofre com a síndrome de Guillain-Barré, uma doença autoimune que afeta o sistema nervoso, provocando fraqueza muscular e paralisia.

O Maestro, ou Professor, se trouxermos a tradução literal para o nosso idioma, já ganhou até prêmio da UNESCO pelos anos em que lecionava em escolas públicas do seu país. Num tempo que ele dividia sua profissão com a de jogador de futebol profissional, onde atuava como zagueiro. Foram doze anos de carreira, atuando por clubes de menor expressão de lá.

Tabárez é diferenciado. Além do lado professor, por ser um profissional extremamente culto, ele tenta acabar com o estigma de futebol violento dos uruguaios. Seu objetivo é trocar os chutes e pontapés por bom futebol. Por mais que possamos contestar o estilo de jogo dos nossos vizinhos ainda nos dias atuais, os resultados dentro de campo voltaram, e o grande responsável por isso, com certeza é ele.

Óscar Tabárez é um dos trunfos da Celeste Olímpica (Foto: EFE)

Quem serão os jogadores na Copa?

A Federação Uruguaia de Futebol ainda não divulgou sua lista com os convocados, mas tentar considerar os 23 prováveis que defenderão o país na Rússia. Os jogadores listados estiveram presentes em boa parte das últimas convocações.
Goleiros:

Fernando Muslera (Galatasaray-TUR)

Martín Silva (Vasco da Gama-BRA)

Martín Campaña (Independiente-ARG)

Defensores:

Diego Godín (Atlético de Madrid-ESP)

José Giménez (Atlético de Madrid-ESP)

Sebastián Coates (Sporting Lisboa-POR)

Maximiliano Pereira (Porto-POR)

Guillermo Varela (Peñarol-URU)

Gastón Silva (Independiente-ARG)

Martín Cáceres (Lazio-ITA)

Meiocampistas:

Nahitan Nández (Boca Juniors-ARG)

Matías Vecino (Internazionale -ITA)

Rodrigo Bentancur (Juventus-ITA)

Cristian Rodríguez (Peñarol-URU)

Carlos Sánchez (Monterrey-MEX)

Giorgian De Arrascaeta (Cruzeiro-BRA)

Diego Laxalt (Genoa-ITA)

Lucas Torreira (Sampdoria-ITA)

Gastón Ramírez (Sampdoria-ITA)

Atacantes:

Luis Suárez (Barcelona-ESP)

Edinson Cavani (Paris Saint Germain-FRA)

Cristhian Stuani (Girona-ESP)

Maximiliano Gómez (Celta de Vigo-ESP)

A volta da identidade vencedora

O Uruguai tem umas das histórias mais gloriosas do futebol mundial. Campeões da primeira Copa do Mundo em 1930, realizada em seus domínios, os uruguaios provavam ao mundo que eram uma potência do futebol na época, já que além do Mundial, haviam vencido o torneio de futebol das duas últimas Olimpíadas, em 1924 e 1928, respectivamente.  Daí nascia a Celeste Olímpica, imponente e com um futebol extremamente respeitado e admirado além do continente sul-americano.

Vinte anos após seu primeiro triunfo, veio àquela que é considerada para eles sua maior glória, e para nós brasileiros, por muito tempo, foi a nossa maior derrota.  O Maracanazo foi a vitória de uma imponente e eficiente forma de se jogar, contra um futebol solto e alegre, mas que é relatado pelos uruguaios mais antigos como soberbo. Para a gente, um duro golpe, para eles a vitória do bem sobre o mal. Eram 200 mil torcedores sendo calados por Schiaffino e Ghiggia num 16 de julho que se tornou inesquecível para a história do futebol charrua.

Ghiggia marca o gol da virada uruguaia e cala o Maracanã (Foto: Reprodução/AUF)

Mal podiam saber que aquela seria a última grande conquista do país no futebol. Tiveram boas campanhas, foram semifinalistas em outras três Copas do Mundo (1954, 1970 e 2010), mas as vitórias mundo afora se tornaram cada vez mais raras. Vieram Copa América, Mundialito e Pan Americano, mas o tão sonhado Mundial de futebol estava cada vez mais distante do povo uruguaio.

O trabalho de resgate da identidade Celeste começou quando Óscar Tabárez assumiu o comando da seleção em 2006, culminando com a semifinal da Copa do Mundo frente a Holanda. Quarenta anos após, a bi campeã mundial retornava a uma fase tão aguda da competição. Mesmo sem a vaga na final e com derrota na decisão do terceiro lugar, o orgulho de uma nação voltou a estampar o rosto do seu povo tão apaixonado por futebol. A sensação de que eles estavam no caminho certo começou a deixa-los cada vez mais encantados pela Seleção. No ano seguinte veio a conquista da Copa América na Argentina, uma vitória que não acontecia desde 1995.

A classificação para as oitavas de final da Copa de 2014 após ser sorteada no chamado “grupo da morte”, com Inglaterra e Itália, aumentou ainda mais o otimismo da torcida celeste. Nem mesmo o episódio da mordida de Luis Suárez sobre o zagueiro italiano Giorgio Chiellini, o que acabou ocasionando na suspensão do ídolo uruguaio, abalou os ânimos dos torcedores. Havia muito otimismo no confronto contra a Colômbia pela primeira fase eliminatória daquela Copa, mas James Rodrigues jogou um verdadeiro balde de água fria nos uruguaios, que deram adeus à Copa do Mundo do Brasil.

Suárez dá uma mordida em Chiellini e é suspenso (Foto: Reprodução/twitter @futbol)

Quatro anos se passaram, e a certeza de que o Uruguai voltou a figurar entre os grandes protagonistas do futebol mundial é cada vez mais palpável. A ansiedade pela maior competição de seleções já toma conta de todos e chegou a hora dos nossos vizinhos provarem que fazem parte do primeiro escalão do mundo da bola.
Confira os jogos do Uruguai pelo Grupo A:

Todos os jogos do Uruguai na Copa do Mundo (Imagem: Reprodução / FIFA)
Fontes: Ovacíon, Tenfield, ESPN, GloboEsporte.com

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