De Kiev à Madrid: O retorno do Liverpool ao primeiro escalão do futebol europeu

Liverpool bate o Tottenham na grande final inglesa da Champions League e conquista sua sexta taça da competição

Liverpool levanta o caneco da Champions pela sexta vez (MIKE HEWITT/GETTY IMAGES)
Por: José Victor (RJ)

O Liverpool é um dos maiores clubes da história do futebol. Grande vencedor dentro da terra da rainha – mesmo que enfrente uma seca relacionado à Premier League –  também está entre os maiores vencedores da Liga dos Campeões da Europa, atrás apenas de Real Madrid e Milan. Com a conquista de sábado, o clube inglês venceu a competição mais importante do velho continente seis vezes. Porém, antes do título contra o Tottenham, era considerado por muitos um gigante adormecido.

A equipe de Anfield sequer era cotada como uma das favoritas ao título na temporada de 2017/18, quando encarou o poderoso Real Madrid na final em Kiev. Afinal, se o Liverpool sempre foi um grande vencedor, por quê havia deixado de ser temido na Europa?

O fato é que o Liverpool demorou a compreender a “Nova Ordem do Futebol Mundial”, onde o dinheiro é peça essencial para que você mantenha um time sempre competitivo. O clube inglês demorou mais do que os outros rivais a explorar as fronteiras que havia conquistado apenas com o seu plantel recheado de ingleses que, convenhamos, já é um feito e tanto. Nos últimos anos, foram poucas contratações de jogadores World Class e algumas perdas doídas para rivais; como Fernando Torres para o Chelsea, além de Luís Suárez e Philippe Coutinho, ambos para o Barcelona.

Desde a chegada do técnico alemão Jürgen Klopp, o clube passou a ser mais cirúrgicos nas contratações. Investiu pesados em nomes de peso como Salah e Virgil Van Dijk, sendo o holandês o zagueiro mais caro da história do futebol. E aos poucos, o Liverpool se tornou apto para encarar qualquer adversário sem temor. Prova disso, foi a final de Kiev, contrariando diversos prognósticos iniciais.

O retorno da equipe de Jürgen Klopp à final marca a consolidação do clube inglês como uma potência européia ao final da década atual. O clube tirou diversas lições de sua última ida à final, quando sucumbiu para o Real Madrid na capital ucraniana. Na final, o clube perdeu Salah nos minutos iniciais, seu principal jogador, sendo substituído por Lallana que se mostrou inoperante. O time se mostrou instável emocionalmente, e viu o goleiro Kairus falhar duas vezes de maneira inacreditável. Não teve jeito, o Liverpool apesar da belíssima campanha e futebol vistoso durante a campanha, acabou derrotado por 3×1 para o Real Madrid.

O jogo deixou uma lição: É preciso mais do que foi apresentado até aqui para enfrentar de igual pra igual as melhores equipes do continente.

Virgil van Dijk foi um dos símbolos da conquista (Fonte: Twitter/Liverpool)

E depois?

O clube inglês foi às compras de maneira cirúrgica. Levou Alisson, Shaqiri, Naby Keita e Fabinho. Para a temporada 2018/2019, o técnico alemão montou um elenco enxuto, mas polivalente e de extrema qualidade, sempre com um substituto a altura para cada posição. E a equipe conseguiu fazer uma das melhores temporadas de sua história, ao bater o recorde de pontos na Premier League e faturar a Champions League pela sexta vez na história. Mesmo encarando muitas dificuldades, os Reds passaram com maestria sobre todas.

Na Liga dos Campeões, o clube caiu num grupo complicadíssimo com PSG, Napoli/ITA e Estrela Vermelha/SER. A estreia não poderia ser melhor: vitória  por 3×2 sobre o PSG – FRA, em Anfield, com Roberto Firmino marcando nos minutos finais do jogo para delírio dos torcedores, cenário impecável para o Liverpool dar as cartas na atual temporada. Porém, veio uma atuação apagada na derrota para os italianos fora de casa e uma goleada protocolar contra o azarão do grupo, no Reino Unido. Após enfrentar os três concorrentes, ficou evidente que a vaga seria decidida no detalhe.

Na Sérvia, o Liverpool acabou se complicando. Após poupar alguns titulares, teve um apagão e fez certamente o seu pior jogo no ano. Derrota para o time da antiga região da Iugoslávia por 2×0, o que colocou em cheque a pela primeira vez, a qualidade do elenco inglês. Contra o PSG, até houve sinais de melhora, mas não o suficiente para superar os franceses em Paris, ou seja, a decisão da vaga nas oitavas  iria para a última rodada: contra o Napoli, em Anfield.

No jogo chave, o Liverpool se impôs e marcou no primeiro tempo com a estrela do time, Mohamed Salah. O faraó chamou a responsabilidade, mas durante um segundo tempo de muita pressão dos italianos, Alisson foi o destaque do jogo, fazendo uma defesa milagrosa nos minutos finais, não deixando dúvidas quanto a sua qualidade e curando o primeiro trauma da torcida dos Reds em relação à final em Kiev: goleiro.

Nas oitavas, um ingrato sorteio contra o Bayern de Munique, nada que fosse problema para Jürgen Klopp, que conseguiu vencer o seu algoz da final de 2013. O Liverpool sem o zagueiro holandês Van Dijk – um dos cotados ao prêmio de melhor jogador do mundo – conseguiu segurar o time alemão em Anfield. A zaga sem Van Dijk, que sempre costumava alvo de fortes críticas, teve uma atuação impecável com Matip e Fabinho. O brasileiro que foi anunciado como reforço logo após a final em Kiev, e começou a temporada sem muito espaço, teve uma excelente atuação na zaga, foi talvez o ponto alto de quanto o elenco do Liverpool era capaz de encarar qualquer adversário de igual pra igual mesmo com baixas.

No jogo de volta, já com Van Dijk e o Sadio Mané inspiradíssimo, o Liverpool impôs uma sonora derrota ao Bayern na Allianz Arena: 3×1 para o clube inglês. Outro recado estava dado: A temporada passada não tinha sido algo fora da curva, os Reds estavam de volta ao hall dos clubes mais temidos da Europa.

Nas quartas, o Liverpool teve um afago do destino, pegou o Porto e fez valer o seu favoritismo a no confronto. 2×0 no jogo de ida em Alfield, e 4×1 no Estádio do Dragão. Outra lição foi corrigida: a concentração que faltou no confronto contra o Estrela Vermelha fora de casa, se fez presente contra a equipe lusitana. Mais uma vez, o Liverpool estava à beira de mais uma final de Liga dos Campeões da Europa. Porém, o confronto seria muito mais difícil do que todos enfrentados até então: Barcelona.

Na Catalunha, o Liverpool teve uma ótima atuação. Porém, quem disse que uma grande atuação é capaz de garantir uma vitória no futebol? Os Reds, mais uma vez tiveram que lhe dar com a amargura de enfrentar um jogador fora de série na sua ambição pela sexta taça de Champions League. Com Lionel Messi inspiradíssimo, e Luís Suaréz mostrando aos torcedores dos Reds a “lei do ex” de forma empírica, o clube catalão construiu um 3×0 no qual apenas os deuses do futebol poderiam evitar a sua classificação.

O Liverpool a essa altura também estava empenhado na conquista da Premier League, o que fez com que a equipe chegasse bem desfalcada para o confronto em Anfield. Muitos cravariam que o clube inglês não poderia sequer vencer o Barcelona em Liverpool.

Felizmente, o futebol não é feito de certezas. O Liverpool mais uma vez contrariou as estatísticas e a racionalidade ao ponto de deixar o mundo da bola incrédulo com atuações impecáveis do até então criticado Origi, do polivalente Wijnaldum e o Alexander Arnold, um jovem jogador e torcedor do Liverpool, de 20 anos de idade, fã de Steven Gerrard, e representante da atmosfera criada em Anfield. Arnold fez valer o elo entre torcida e equipe, literalmente jogaram juntos, Alisson fez defesas monumentais, e os Reds, clube de tantos milagres havia feito um em Anfiled com o último tento sendo marcado por Origi, após assistência de Arnold.

O time de Jürgen Klopp, o técnico Heavy Metal, estava novamente na final da competição mais importante da Europa, passando por cima do Barcelona, time do melhor jogador da temporada até então e favorito ao título. É oficial: O gigante ressurgiu!

Foram três semanas de espera e nem a amarga perda da Premier League para o Manchester City, de Pep Guardiola, foi capaz de gerar apatia na equipe dos brasileiros Alisson, Fabinho e Firmino. Após três semanas de espera, o Liverpool iria até Madrid decidir o jogo contra o Tottenham de outro treinador de campanha incrível: Maurício Pochettino.

O time londrino conseguiu superar a ausência de Harry Kane para chegar até a final, foi uma campanha improvável, já que o clube sequer realizou contratações para a temporada de 2018/19. Uma história impecável de um treinador amado, mesmo sem conseguir taças, de uma torcida que sempre sentiu a amargura de se ver atrás do seu maior rival, o Arsenal, e que jogou boa parte da campanha fora de casa. Um roteiro de cinema, e que embora merecesse um final feliz, esbarrava em outro clube tão necessitado quanto os Spurs da taça, e com belíssimas histórias a serem contadas.

Os times fizeram uma final com nível técnico abaixo do esperado. A sorte sorriu para o Liverpool logo no primeiro minuto, quando o árbitro marcou pênalti após Sissoko interceptar o passe de Mané com o braço. Salah bateu o pênalti e converteu, 1×0. O Liverpool não teve uma atuação brilhante, mas Alisson conseguiu ser firme todas as vezes que foi acionado.

A atuação de Kairus na final de Madrid na final em Kiev não deixou nenhum tipo de fantasma em Madrid, o Liverpool vinha conquistando sua sexta taça com um gol do principal nome do trio de ataque. Até que no segundo tempo, Origi entrou no lugar de Firmino, que havia voltado de lesão e chegou até ser dúvida para o confronto.

Apesar de jovem, Origi é um dos jogadores com mais tempos de casa no atual elenco dos Reds. Ao contrário de Henderson, Milner e Firmino, seus contemporâneos da época de vacas magras, nunca contou com o prestígio dos torcedores, encarando até mesmo um empréstimo sem sucesso para o Wolfsburg na última temporada, aonde marcou 7 vezes em 36 jogos, pelo clube alemão. Tudo indicava o fim da linha para o centro avante belga. Até que Klopp decidiu incorporar o jogador ao elenco enxuto dos Reds.

O jogador belga, sempre criticado, se tornou peça fundamental na temporada. Embora seja tecnicamente abaixo do trio de ataque titular, Origi marcou gols importantes na Premier League por estar no lugar certo na hora certa. Gols até meio desajeitados, mas que consagram qualquer centro avante. Aos poucos, passou a ser tratado como um amuleto. E o quarto gol contra o Barcelona, já havia marcado o nome do jogador na história do clube. Origi confirmou a tese de que era predestinado, e não bastasse o gol contra o Barcelona, pegou uma bola rebatida na área e bateu cruzado sem chances para Lloris já na reta final de jogo. Quem se vestiu de vermelho no planeta trajou alívio e gratidão ao belga. Não era preciso mais nada para os torcedores do Liverpool que não fosse o final do jogo, era a redenção de Origi, da equipe inglesa e de Jürgen Klopp.

Os tempos de mediocridade que contrastavam com o passado vencedor do clube havia ficado para trás, finalmente o clube inglês mais vencedor da UEFA Champions League, estava de volta ao seu devido lugar. No fim do jogo, Klopp – que já havia perdido três finais européias – desabafou:

“Eu só quero aproveitar que ganhamos. Todo o resto não é importante. Teremos uma noite sensacional. Eu me sinto mais aliviado, para ser honesto. Alívio pela minha família, na verdade! As últimas seis vezes sempre voamos de férias com uma medalha de prata! Então, isso é para eles também!”

Festa nas ruas de Liverpool (Fonte: Twitter/Liverpool)

Uma redenção coletiva. Título que coloca o Liverpool de novo em seu devido lugar e mostra que a equipe veio até o topo da Europa para ficar. É bom que os novos torcedores fortaleçam suas cordas vocais, e de fato, nunca deixem o clube caminhar sozinho. Pois agora não haverá apenas time e torcida caminhando juntos, as taça da Champions, obtida em Madrid e muita outras que estão por vir, também farão partes da caminhada.

Fonte: Liverpool-Brasil

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