Do trauma ao ouro: o caminho de Odair Hellmann

TÉCNICO DEIXOU O TIME FORTE NA BRIGA PELO BRASILEIRÃO

Por Ricardo Santos, RS

Ele passou do “não vou morrer” ao “é campeão”. Das lamentáveis situações incontroláveis da vida, repleta de altos e baixos, Odair Hellmann viveu um episódio marcante do futebol gaúcho. Infelizmente, a marca é a tristeza e a dor de um povo que vive a energia do esporte no interior. “Raiz”, como gostam de chamar, é a alma do torcedor xavante, que em 2009 teve sua paixão golpeada pelo acidente com o ônibus do Brasil de Pelotas. Neste, estava o então volante Odair Hellmann.

“Eu não desmaiei. Tomei todas as pancadas do ônibus. E dizia a mim mesmo: não vou morrer. Não vou morrer” – disse o treinador em depoimento ao GloboEsporte no ano de 2016.

O jovem Odair Hellmann, ex-jogador do Internacional. (Foto: Arquivo Histórico SCI).

Aquele quinze de janeiro de 2009 marcou a vida do agora treinador de futebol. A delegação voltava de um amistoso quando o ônibus tombou em uma curva no Km 150 da BR-392, próximo ao município de Canguçu, às 23h30, e despencou de um barranco de quase 40 metros. Cláudio Millar, Régis e Giovane Guimarães morreram no acidente. Odair perdeu queridos amigos. Teve que lidar com o luto e o trauma. Abandonou a carreira como jogador e resolveu estudar, aperfeiçoar-se para vir a ser o que é hoje, um bom treinador de futebol.

Odair como auxiliar-técnico do Internacional. (Foto: Alexandre Lops/AI Inter).

Em novembro daquele mesmo ano chegou ao Internacional. O “papito” como é carinhosamente chamado no clube conhece muito bem a casa colorada. Atuou como auxiliar do Internacional por vários anos, aguardando uma oportunidade para mostrar serviço. E a oportunidade chegou: um GreNal, logo após a demissão de Diego Aguirre.

De surpresa, com algo tão difícil de conceber como uma demissão abrupta precedendo um clássico, Odair se viu na necessidade de comandar o Inter diante do Grêmio. O fruto da falta de planejamento daquela direção, colocando sob os ombros de Odair o peso de um clássico, tornou real o placar bailarino raro de 5×0 na Arena do Grêmio.

Sabendo onde chegou Odair, atualmente. Tudo nos leva ao velho clichê da “superação” nas matérias jornalísticas. Porém, vamos falar em trabalho. Um bom trabalho. Após aquele forte revés, Odair retornou ao cargo de auxiliar no Inter, e recebeu a missão de fazê-lo, também, na Seleção Brasileira que disputaria as Olimpiádas do Rio 2016. Auxiliar Rogério Micale era a incumbência, a fim de conquistar ao Brasil uma medalha de ouro inédita. O resultado, tem-se na cabeça de todos nós brasileiros.

Odair gritou: “é campeão!”. Feito inédito. Que também trouxe novos ares para a vida do auxiliar e treinador.

Ao lado de Neymar, Odair na conquista do ouro olímpico. (Foto: divulgação/Internet).

Em 2017, o “papito” voltou a casa-mata colorada, para carimbar de vez a classificação e retorno do Inter a Série A do Campeonato Brasileiro. Naquele momento, sob olhares desconfiados, que rememoravam aqueles 5×0 no clássico – mesmo que Hellmann fosse tão pouco culpado. O respaldo do treinador? O carinho que o grupo de jogadores tinha por ele. Diante do Oeste, no jogo decisivo para o acesso do Inter, o futebol foi aquele mesmo rançoso de longa data, na série B, mas a entrega, totalmente diferente. Os jogadores correram mais. Correram também pelo Odair.

Efetivado na atual temporada, Odair Hellmann enterrou a desconfiança de muitos. Há de se orgulhar aqueles que bradavam pela permanência do treinador, pois eram poucos. Poucos, mas sem dúvida, corretos. O Inter se tornou uma nova equipe, revigorada. Odair Hellmann segue com um trabalho talvez até silencioso, sem muito alarde; entretanto, extremamente eficaz. A campanha do Inter até então, advindo com tantos problemas da Segunda Divisão, é algo a se exaltar. Odair Hellmann traz consigo a lição de que altos e baixos acontecem na vida e no futebol, e pouco podemos fazer para mudar isso. A insistência e a confiança no ofício é que são capazes de trazer finais melhores de se contar, como o momento que vive o “papito”, na graça dos colorados.

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