Estudiantes 3 x 3 Grêmio: Batalha de La Plata e o empate pela vida

UM BAITA SUFOCO NA ARGENTINA

Por: Marcella Lorandi | RS

O Grêmio terá uma velha e conhecida batalha em campo para seguir na defesa do “cinturão” da Libertadores e continuar na busca pelo tetracampeonato. O Imortal encara o Estudiantes de La Plata pelas oitavas de final da Copa mais cobiçada da América do Sul. A partida de ida acontece no dia 07/08 e a volta no dia 28/08. Os dois clubes reúnem sete taças da competição, três dos tricolores e quatro dos argentinos. Além de um caminhão de tradição e uma história daquelas.

Em 1983, no estádio Jorge Luis Hirchi, o mando era do Estudiantes e a partida era válida pelo triangular que decidiria um dos finalistas da Libertadores. Valdir Espinosa, então técnico do Grêmio, e seus comandados não imaginavam a história que estaria sendo escrita dentro daquelas quatro linhas, e muito menos que aquela partida ficaria para sempre conhecida como a Batalha de La Plata.

Uma vitória garantia o Grêmio na decisão e um empate faria o Tricolor depender do confronto entre América de Cali e Estudiantes.

Entretanto, muito antes da bola rolar, o clima tenso já pairava sob os semblantes dos gaúchos. O Grêmio havia entrado em campo na quarta-feira contra o América de Cali e logo na sexta-feira já enfrentaria o rival argentino. O clima não era amistoso, a partida não seria fácil e os avisos já haviam começado.

Se atualmente os hermanos convivem com a fama de jogar com a “catimba” a seu favor, naquela época não era só cera, e do outro lado da fronteira havia violência, intimidação e falta de proteção da polícia. A direção do Grêmio, para não dar sorte ao azar, concentrou em Buenos Aires, 60 km longe de La Plata. Ainda assim, jornalistas que vivenciaram aquela cobertura contam que o Hotel Continental, na capital argentina, recebia constantes ligações de ameaças à vida e à integridade física dos jogadores tricolores. E nomes como o goleiro Mazaropi e o zagueiro uruguaio Hugo De León eram os que mais preocupavam a direção.

À paisana, o Grêmio deixou o hotel rumo a La Plata, com um ônibus alugado sem nenhuma identificação que lembrasse o azul, o preto e o branco. De nada adiantou. Na chegada ao estádio Jorge Luis Hirchi, o veículo foi alvejado com pedras e todos objetos possíveis.

Para piorar, logo na entrada do gramado para a foto oficial, torcedores argentinos dispararam foguetes em direção aos atletas. O atacante Trobbiani do Estudiantes recebeu cartão amarelo antes da partida iniciar e os ânimos ficaram ainda mais alterados.

Equipe do Grêmio campeã da Copa Libertadores da América de 1983

Às 22h, de 8 de julho de 1983, o árbitro uruguaio Luis de La Rosa apitou o início do duelo. Um ataque de cada lado e amarelo para Mazaropi que retardou o jogo ao reclamar de objetos lançados às suas costas. Dois rojões explodiram próximos à meta do goleiro gremista. O empurra-empurra começou, Trobbiani recebeu o segundo amarelo ao colocar a mão na bola, e o primeiro vermelho da partida. China, volante do Grêmio também foi advertido com amarelo. No lance seguinte, mais uma vez o bolo se forma, o árbitro é empurrado e o vermelho da vez é para Ponce, meio-campo do Estudiantes. A essa altura não havia mais bola em campo, se Ponce empurrou o árbitro, o goleiro Bertero chegou na confusão para derrubar La Rosa, jornalistas afirmavam convictos que não havia mais autoridade do uruguaio na partida, que estava só no primeiro tempo, mas já contabilizava imprensa, dirigentes, reservas e polícia dentro das quatro linhas.

A partida reiniciou aos 38 minutos e numa cobrança de falta Gurrieri marcou para os argentinos. Em seguida veio a resposta, e depois da tabela de De León e Renato, Osvaldo marcou o dele e deixou tudo igual no placar. Fim da primeira etapa e hora de encarar o túnel de acesso aos vestiários. O clima hostil se confirmou e a caminho das dependências do Estudiantes, o argentino Camino acertou um chute no tornozelo de Caio, e os demais gremistas deixaram o campo sob cusparadas, chuva de objetos e cânticos racistas.

Recomeçou a partida, e logo aos sete minutos Renato Portaluppi marcou e virou o jogo em La Plata. Aos 17, o atacante balançou as redes mais uma vez, em jogada individual, e como de costume comemorou com beijinho e pedindo silêncio. Resultado: despertou a ira do adversário e enlouqueceu os argentinos mais raivosos. Nova confusão e o atleta expulso é Camino, com oito jogadores o técnico Eduardo Manera reuniu seu time e pediu que mantivessem a calma, mas Tevez agrediu Renato, levou o segundo amarelo e também foi para o chuveiro. Só restaram sete jogadores, o número mínimo de atletas em campo.

Técnico do Estudiantes pedindo calma aos seus comandados.

Ali iniciou a empreitada do Estudiantes em busca do empate. Gurrieri que marcou o primeiro dos argentinos, descontou, e o placar apontou Estudiantes 2 x 3 Grêmio. A pressão continuou e Mazaropi entregou o rebote nos  pés de Russo e com leve desvio do zagueiro tricolor Leandro, o Estudiantes empatou a partida. Com a torcida ensandecida La Rosa apitou o fim da Batalha de La Plata.

E ainda que imprensa e torcedores fossem incapazes de compreender como uma equipe completa pôde ceder o empate enfrentando sete jogadores em campo, os fatos começaram a ser esclarecidos. A velocidade da informação precisou aguardar o retorno da delegação e dos jornalistas ao Rio Grande do Sul para que as histórias fossem contadas. E a Batalha de La Plata ficou para sempre marcada como a partida em que o Grêmio empatou para sair vivo da Argentina.

Empate deixa jornalistas perplexos e estampa a capa do jornal Zero Hora.

Soube-se até que havia rivalidade geopolítica envolvida na partida. Os argentinos viviam a Guerra das Malvinas contra a Inglaterra, e a notícia de que aviões ingleses foram autorizados a pousar na Base Aérea da cidade gaúcha de Canoas para reabastecimento revoltou o povo vizinho, que aguardou o Grêmio para descontar a raiva da traição à América Latina.

O saldo da partida ficou em três gols para cada lado, e quatro expulsões argentinas. Gremistas com hematomas, cortes, arranhões, e camisas rasgadas. E um total de seis amarelos distribuídos. A classificação para a final da Copa se confirmou em seguida, quando América de Cali e Estudiantes empataram em 0 x 0. O Grêmio foi a final contra o Peñarol, empatou no Uruguai, venceu no Olímpico, conquistou sua primeira Libertadores e o resto é história sendo escrita sob nossos olhos.

Fonte: ClicRBS

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