Eurico Miranda: a figura mais controversa da história do Vasco

UM DOS DIRIGENTES MAIS FAMOSOS DO BRASIL

Eurico Miranda em sua essência: charuto e suspensório eram suas marcas registradas. (Foto: GETTY IMAGES)

Honorato Vieira, CE

José Victor, RJ

Aos 74 anos, Eurico Miranda morreu em um hospital na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, vítima de tumor no cérebro. Atualmente, ele estava no cargo de presidente do Conselho de Beneméritos do Vasco. Recentemente, o dirigente superou um câncer na bexiga e outro no pulmão. Nos últimos meses, andava de cadeira de rodas e havia dificuldade até para a comunicação, o que não impediu de participar ativamente da vida política do clube no qual construiu toda sua imagem.

Eurico foi presidente do Gigante da Colina em dois períodos: de 2003 a 2008, e de 2015 a 2017. Também foi vice-presidente de futebol do clube entre 1990 e 2002, tendo participado do período de maiores conquistas, como o Campeonato Brasileiro de 1997, a Copa Libertadores de 1998, a Copa João Havelange de 2000 e a Copa Mercosul de 2000. Ao todo foram 37 taças conquistadas. O controverso cartola também fez parte dos quadros da CBF no início dos anos 1990.

Eurico diz que praticamente nasceu dentro do Vasco, de fato, seu pai fazia questão que toda família tivesse a vida social ativa no clube. Porém, mesmo já ocupando alguns cargos desde a década de 1960, os feitos no futebol  enquanto dirigente começaram a se notabilizar para todo cenário nacional apenas no início da década de 1980.

Ainda enquanto criança, já era difícil distinguir Eurico do clube no qual dedicou sua vida. Segundo José Louzeiro, escritor responsável pela tentativa de realizar uma biografia do ex-presidente do Vasco, Eurico foi expulso do Santo Inácio, colégio frequentado por boa parte da elite carioca na Zona Sul do Rio de Janeiro. As motivações? O seu temperamento explosivo, que acarretava em diversas brigas e a insistência em usar camisa do Vasco pelos corredores, algo não tolerado pela escola. O curioso é que são raríssimos os registros do dirigente vestindo a camisa vascaína.

Eurico Miranda vestindo a camisa da Força Jovem Vasco, em 1994 (Foto: Reprodução/Internet)

Figura icônica, a sua imagem sempre foi de um senhor fanfarrão que não tinha medo de ninguém, e talvez, não tivesse mesmo, pois nem o narcotraficante Pablo Escobar foi poupado de suas artimanhas. O Cartel de Medellin comandava o principal time da cidade, o Atlético Nacional. Após a conquista em da Copa Libertadores em 1989, em 1990, o Atlético Nacional defenderia o seu título e iria encarar o Vasco nas quartas de final. E é aí que as histórias de Pablo Escobar e do folclórico cartola vascaíno se cruzariam.

Após um 0 a 0 no Maracanã,  a partida de volta seria na Colômbia no auge do tráfico de drogas no país. Em campo, os donos da casa fizeram 2 a 0, mas, sabendo de conversas de bastidores, Eurico Miranda, então vice-presidente de futebol vascaíno, começou a insinuar que Pablo Escobar teria comprado o árbitro da partida, o uruguaio Juan Daniel Cordellino, e fez tudo para que a partida fosse remarcada. A Conmebol ouviu Cordellino, que disse que foi procurado, mas não tinha aceitado suborno. Porém, admitiu que apitou pressionado. O duelo foi jogado novamente, no Chile, e o Atlético venceu por 1 a 0.

Figura controversa da história vascaína, ganhou notoriedade, no futebol, ao  ser um dos nomes que participaram no chapéu em que o Flamengo sofreu ao ajudar a repatriar Roberto Dinamite, em maio de 1980, quase cinco meses após o artilheiro ter trocado o Vasco pelo Barcelona, da Espanha. E foi justamente o Flamengo, seu maior algoz e impulsionador de uma rivalidade que ao ser incentivada, acabou se tornando uma das maiores do mundo.

Eurico conversa com o craque Roberto Dinamite, após o atacante retornar do Barcelona, em 1980. (Foto: Agência/AGÊNCIA O GLOBO)

O ex-mandatário nunca fez questão de esconder qualquer triunfo em cima do maior rival, sempre com a mais alta dose de provocação, marca do futebol brasileiro nos anos 1980 e 1990. Se no começo da década repatriar um dos maiores ídolos da história do clube lhe concedeu o status de homem forte do futebol, o final da década foi uma constatação. A contratação de Bebeto, no meio da temporada, sendo o principal nome em atividade do futebol brasileiro e do maior rival, foi para coroar. Justamente, o melhor jogador da polêmica Copa União de 1987, campeonato no qual Eurico ajudou a fundar e destruir.

Eurico Miranda sempre foi um grande articulador, e isto, era uma de suas maiores virtudes, mesmo que muitas vezes seja usada para interesse pessoal, como a eleição controversa na Sede Náutica da Lagoa. O ex mandatário vascaíno nunca aceitou menos do que o protagonismo, o que também não significa que tenha saído diversas vezes pela tangente, típico de um sofista, mestre da retórica.

Como todo grande advogado, Eurico sabia as minúcias de leis e regulamentos e como utilizá- los a seu favor. Todo vascaíno lembra do rebuliço causado na final do Brasileirão de 1997 para que Edmundo pudesse ser escalado no segundo jogo após a sua expulsão infantil, há quem diga em diversas mesas de bar do Brasil inteiro que o craque vascaíno tenha até sido instruído pelo “doutor” a forçar o cartão vermelho para que o efeito suspensivo pudesse ser concedido. Se é verdade ou não, fica o folclore e as bravatas na história; assim como a aparição do Animal no Maracanã, jogando a partida decisiva, e sendo carregado pelos braços da torcida após o título.

Foram inúmeros casos de jogadores que relataram a admiração ao ex presidente vascaíno: Petkovic, Romário, Donizete, Ramon Menezes; todos tem seus causos sobre a relação com Eurico. Os dois últimos respectivamente, já estiveram apalavrados com o Flamengo e foram interceptados pelo doutor quando estavam prestes a assinarem o contrato. Donizete em 1998, por indicação de Edmundo; enquanto Ramon foi abordado no aeroporto em 2002.

É importante ressaltar que nenhum dos episódios citados até aqui foram feitos enquanto Eurico esteve à frente da presidência no Vasco. De dirigente amado, passou a ser um presidente repudiado pela maioria dos torcedores, o caos financeiro após o encerramento da parceria entre o clube carioca e o Nations Bank azedou cada vez mais a relação com os torcedores.

Aquele personagem querido, com o seu nome sendo cantado a plenos pulmões na arquibancada, ficou no passado. O presente passou a ser marcado por censura aos jornalistas, eleições controversas e poucos transparentes; além de times medíocres, escassez de títulos e rebaixamentos. Cenário oposto ao qual o próprio Eurico ajudou a construir enquanto era apenas um dirigente, ou melhor, enquanto era “O” dirigente.

Gostem ou não, Eurico será imortal. Por alguns, será lembrado por suas bravatas, como a que ocorreu na Final da Copa João Havelange de 2000, quando desafiou a Globo e anunciou sua principal concorrente, o SBT, na camisa, sem qualquer contrapartida financeira. Outros, lembraram daquele dirigente explosivo, sempre declarando amor incondicional ao Vasco, e depois de qualquer vitória; seja na final da Libertadores ou após uma simples vitória na categoria sub 7 do futsal, cantando efusivamente o “CASACA!”.

A sua história será sempre contada. Seja por aqueles que lhe amavam, os que lhe odiavam, os que apenas  só ouviram falar e até mesmo os que não o conheceram. Pois assim é o destino dos heróis e vilões, no seu caso, um ser  completamente autêntico capaz de confundir os sentimentos de qualquer figura que tivesse contato não apenas com o Gigante da Colina, mas com o futebol brasileiro. Muitos clubes tiveram dirigentes marcantes, apenas o Vasco teve Eurico Miranda.

Doutor, descanse em paz!

Fontes: UolEsportes Terra

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