Ever Hugo Almeida, a referência de amor ao Olimpia

O ex-goleiro é o atleta que mais disputou jogos de Libertadores na história

Com 113 jogos e dois títulos, Ever Hugo Almeida é o cara da maior competição do continente (Foto: Reprodução D10 Paraguay)
Por Dudu Nobre, PR

A Copa Libertadores é uma competição ímpar, que atrai multidões há 58 anos. Viver a atmosfera do torneio é o sonho de muitos jogadores, nem que seja por alguns minutos. Imagine então disputar 113 partidas da maior competição do nosso continente? Essa é a marca do ex-goleiro Ever Hugo Almeida, que além dessa façanha é ídolo de um dos maiores clubes da América do Sul, o Olimpia-PAR.

Uruguaio de nascimento, por ironia iniciou sua trajetória futebolística no Cerro-URU, mas não o Porteño – esse é o Albiceleste da capital Montevidéu. Ficou por lá até 1972, quando em janeiro recebeu um convite do treinador Cacho Silveira para ir ao Paraguai conhecer um empresário espanhol.

A ideia era levá-lo à Europa, mas como as transferências geralmente aconteciam em julho, recebeu duas propostas do futebol local: uma do Cerro Porteño-PAR e oura do Guaraní-PAR. Como Cacho fazia parte da comissão do Aurinegro, Almeida optou pelo Cacique, onde jogou por cerca de 10 meses.

Após chegar ao quadrangular final com Cerro Porteño-PAR, Sol de America-PAR e Olimpia, o Guaraní-PAR fez uma campanha brilhante ao empatar com a equipe Azulgrana e vencer os outros dois oponentes. O que impediu o Aurinegro de ser campeão foi a campanha na temporada regular, muito abaixo dos rivais e que era somada a pontuação da fase decisiva. De qualquer forma, o desempenho de Hugo despertou o interesse do clube que seria sua casa por quase 20 temporadas.

Elenco olimpista que conquistou tudo em 1979 (Foto: Reprodução / Historiascoperas)

A chegada ao Olimpia e o ano mágico de 1979

Almeida chegou ao Decano totalmente adaptado ao futebol paraguaio, tanto que naquele ano de 1973 se nacionalizou paraguaio a pedido do técnico da Albirroja Washington Etchamendi. Na década de 1970, Ever disputou cinco edições consecutivas da Libertadores entre 1973 e 1977 e faturou duas edições do campeonato nacional, em 1975 e 1978.

Mas foi em 1979 que o Olimpia literalmente ganhou o mundo. Em uma entrevista ao canal Tigo Sports, o ex-goleiro afirma que o técnico uruguaio Luis Cubilla foi o grande responsável por essa era de ouro do futebol do Paraguai, introduzindo fatores como pré-temporada e elementos da marcação pressão criada por Rinus Michels na Laranja Mecânica de 1974.

O resultado veio na Libertadores daquele ano. Uma campanha de nove vitórias, dois empates e apenas uma derrota – para o Bolivar-BOL na altitude de La Paz. Com apenas sete gols sofridos, Hugo já era um dos destaques e se agigantou nas duas partidas decisivas. O adversário? Ninguém menos que o Boca Juniors-ARG, então bicampeão continental (1977 e 1978).

No duelo de ida o Alvinegro fez o dever de casa e superou o time Xeneize por 2 a 0. Segundo uma declaração do mandatário olimpista à época, Osvaldo Dominguez, feita em 2017, a diretoria do Boca temia um vexame em casa e ofereceu 40 mil dólares ao clube paraguaio para entregar o jogo. A resposta foi enfática: “O futebol paraguaio não precisa de dinheiro, ele necessita de conquistas e glórias honestas no esporte”.

Com brio e uma boa atuação de Ever, o Decano segurou o 0 a 0 e quebrou uma hegemonia de clubes brasileiros, argentinos e uruguaios que durava desde a primeira edição. Um título histórico que colocou o Paraguai no mapa do futebol Sul-Americano – aliado a conquista da Copa América daquele ano pela seleção albirroja.

Ainda em 1979, o Olimpia disputou o Torneio Intercontinental contra o Malmo-SUE, vice-campeão europeu – o Nottingham Forest-ING se recusou a jogar por conta do jogo ríspido dos Sul-Americanos. Após vencer na Europa e no Defensores del Chaco, Hugo e seus companheiros pintaram o mundo em preto e branco, na última decisão em dois jogos – a partir de 1980 o Japão passou a sediar o torneio.

O Atlético Nacional-COL foi o grande adversário de Ever na carreira (Foto: Reprodução Trivela)

Década de glórias nacionais e fracassos internacionais

Se no final de 1979 o Decano comemorava uma temporada perfeita, no começo dos anos 80 o Alvinegro consolidou uma sequência histórica no país: um hexacampeonato nacional entre 1978 e 1983. Nesta década o Olimpia ainda conquistou os títulos de 1985, 1988 e 1989, ficando com o vice em 1986 e 1987. Isso significa que, nesse período, Ever só não jogou a Libertadores em 1985.

No entanto, o clube não conseguiu ter campanhas internacionais de destaque durante quase toda a década, parando três vezes na segunda fase de grupos e em cinco oportunidades rodou ainda na fase inicial. Em 1981, 1983 e 1988 ainda amargou a lanterna do grupo que participou.

Apenas em 1989 a equipe voltou a uma decisão, muito por causa de Almeida. Era a primeira vez que o goleiro participava de uma edição com fases mata-matas, enfrentando três disputas de penalidades em quatro possíveis.

Nas oitavas defendeu três cobranças e novamente calou La Bombonera. Após passar pelo Sol de América-PAR nas quartas, fez um duelo histórico com o Internacional, perdendo em Assunção mas vencendo em pleno Beira Rio – Ever defendeu um pênalti de Nilson no tempo normal. Nas penalidades, espalmou o chute de Leomir e colocou o Decano na decisão.

Além de defender, nas duas oportunidades Almeida mostrou categoria com os pés e colocou na rede. Após vencer o Atlético Nacional-COL no Paraguai por 2 a 0 e perder em Medellín pelo mesmo placar, o arqueiro tentou repetir a dose, mas parou no icônico René Higuita.

Hugo se redimiu e defendeu duas cobranças na disputa, mas o goleiro adversário estava em uma noite inspirada e, após um show de erros dos cobradores, Alvarez garantiu o título aos colombianos. Uma derrota sentida, mas que amadureceu a equipe para a edição seguinte do torneio continental.

A redenção em 1990 e o adeus aos gramados

Na temporada de 1990 Almeida já havia passado dos 40 anos, se encaminhando para a parte final da carreira. Após tantos insucessos na década anterior, o título da Libertadores era o objetivo do arqueiro uruguaio.

O Decano passou por uma fase de grupos disputada – eliminando o rival Cerro Porteño-PAR e os brasileiros Grêmio e Vasco –, se classificando diretamente às quartas de finais. O campeonato colombiano foi suspenso devido a um assassinato de um árbitro por um cartel de drogas, o que acarretou em 15 times nas oitavas ao invés de 16 (o Atlético Nacional-COL teve o direito de jogar por ser o campeão vigente). Uma equipe não precisaria disputar essa fase, e o Olimpia foi o contemplado.

Nas quartas, o Alvinegro fez um duelo eletrizante com a Universidad Católica-CHI, vencendo por 2 a 0 no Paraguai e empatando em 4 a 4 no estádio San Carlos de Apoquindo. O triunfo no agregado possibilitou a revanche da decisão anterior nas semifinais contra o clube Verdolaga, novamente um confronto de tirar o fôlego.

Vitória olimpista na Colômbia e revés em Assunção, novamente penalidades. Outra vez Higuita defendeu o chute de Almeida, outra vez os cobradores pararam nos goleiros… Mas o final foi diferente: após o 1 a 1 na primeira série, Suarez marcou e Ever se agigantou para cima de Perez, carimbando o passaporte alvinegro à decisão.

Pela frente a melhor geração do Barcelona de Guayaquil-EQU até então, que chegava a uma inédita final de Libertadores após eliminar o River Plate – também nos penais. No duelo de ida o Olimpia fez valer o fator casa e venceu por 2 a 0.

A volta marcou o último dos 113 jogos de Hugo pela competição que viveu intensamente por mais de 15 anos. A pressão era grande, tanto que o Barcelona teve um pênalti a seu favor no início do segundo tempo. Se para a maioria aquilo era aflição, para o arqueiro era um presente, a chance de fazer o que mais sabia. Pobre Acosta, que parou nas mãos de Almeida como tantos outros.

Os equatorianos abriram o placar posteriormente, mas Amarilla garantiu o bicampeonato ao Decano. Se para Los Canarios aquele jogo foi um roubo orquestrado junto à Conmebol por conta de um suposto gol não validado, para o Olimpia era a consagração de seu maior ídolo.

Naquela temporada o time paraguaio foi ao outro lado do mundo, mas não teve o mesmo sucesso de 1979, perdendo para o Milan-ITA por 3 a 0. Eis que no início de 1991 a história de Ever embaixo das traves teve um ponto final.

A maioria dos sites não apresenta o motivo da aposentadoria, mas na mesma entrevista ao canal Tigo Sports o ex-goleiro revelou que o técnico Cubilla – cuja relação havia se desgastado há algum tempo – pediu a diretoria que o tirasse do time para que ele seguisse na casamata.

Almeida foi treinador do Decano no vice-campeonato da Libertadores, em 2013 (Foto: Reprodução Olimpista)

Mesmo com esse impasse o clube fez uma despedida digna em um amistoso com o Cerro-URU, além de oferecer um emprego como treinador nas categorias infantis do Alvinegro. Ever dirigiu o Olimpia em quatro oportunidades, destaque para a passagem de 2013 quando levou o time a uma final de Libertadores – por ironia, perdeu a decisão nos pênaltis para o Atlético Mineiro.

Embora tenha tido outros clubes em sua trajetória, o que Almeida construiu no Decano ninguém poderá apagar. O ex-goleiro foi peça chave para fazer do Alvinegro El Rey de Copas do futebol paraguaio.

Fontes: Abc, El Universo, Globoesporte.comImortais do Futebol e Tigo Sports.

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