França x Croácia: uma final de respeito

ENFIM CONHECEREMOS OS CAMPEÕES

Por: Carlos Garcia, SP

A Copa do Mundo é um evento que mexe com as pessoas de uma forma incrível. E muito disso se deve à sua mística, à sua dificuldade e ao modo cruel de se disputar esse esporte magnífico chamado futebol. Nos meses e semanas anteriores à uma edição de Copa a expectativa que cerca a competição é gigante, bem como a curiosidade sobre como se sairão Brasil, Alemanha, Itália e Argentina. O resto é segundo grupo, terceiro grupo e depois o resto. Mas eis que temos uma final entre França x Croácia e nos perguntamos: e agora? Eles enfraquecem a Copa?

Não, não enfraquecem. Ninguém tem culpa que as equipes do primeiro grupo foram caindo em sequência, como a Itália nas Eliminatórias, a Alemanha na primeira fase, a Argentina nas oitavas e o Brasil nas quartas. Elas caíram e assim o mundo foi se entregando a quem jogava bola de verdade. Sim, a França chegou bem preparada para a Copa do Mundo e todos estavam de olho, mas por não fazer parte do primeiro grupo, aquele das camisas mais pesadas, sempre se questionou até onde eles poderiam chegar, afinal não são poucos os casos de seleções que encantam pelo futebol apresentado mas que não vão a lugar nenhum. Já a Croácia apareceu como surpresa, mas soube conquistar.

Gol croata contra a perdida defesa argentina

E toda Copa do Mundo, terminada a primeira fase, se divide em duas. São as chaves da esquerda e da direita, onde cada lado decide um finalista. E com a eliminação da Alemanha, segundo lugar da Argentina em seu grupo e Uruguai no grupo da dona da casa, as chaves se dividiram de maneira desigual. De um lado estavam Brasil, Argentina, Uruguai, França, Bélgica e Portugal. Do outro estavam Espanha e Inglaterra, que despontavam como favoritas para um lugar na decisão do próximo domingo. “Não podemos esquecer da Croácia, eles golearam a Argentina e estão jogando demais”, diziam alguns mais atentos. E eles estavam certos.

Na primeira chave venceu a França, que cumpriu seu papel, apresentou bom futebol na primeira fase e garantiu lá o seu lugar por ter se classificado em primeiro. Depois disso engoliu com toda justiça a Argentina após sofrer uma virada, venceu o Uruguai com tranquilidade e colocou a Bélgica, destaque da Copa e que já tinha vencido o Brasil, em seu devido lugar sem tomar sustos. E é isso que conquista as pessoas. Um bom futebol, uma revelação fazendo a diferença e um time que aparentemente não tem medo de nenhum adversário.

Do outro lado tem a Croácia. Se antes da Copa você apresentasse vontade de ver o time na final da competição, certamente ouviria de alguém que não seria legal para uma competição tão gigante. Mas aí esse time goleia nosso maior rival, se classifica em primeiro no grupo e depois parte para duas decisões nos pênaltis, contra Dinamarca e Rússia, e uma na prorrogação, diante da Inglaterra.  Inclusive, no confronto contra os ingleses saíram perdendo, foram buscar o resultado para levar o jogo a mais uma prorrogação e aí adicionaram à receita alguns ingredientes que encantaram as pessoas: um gol herói, a festa com o fotógrafo salvadorenho e as crianças em campo para comemorar com os pais a classificação para a final inédita. Pronto, apure um pouquinho em fogo baixo até domingo, sirva em uma mesa com toalha quadriculada em vermelho e branco e agora todo mundo gosta da Croácia.

E temos uma final digna de Copa do Mundo sim.

Fora a Croácia, as outras duas seleções que chegaram ao mata-mata tendo vencido todos os jogos foram Uruguai e Bélgica. E ambas caíram justamente para os Le Bleus, os rivais na final do Mundial. E tem mais: se acontecesse no Grupo D o que todos esperavam, Argentina em primeiro e Croácia em segundo, o duelo do próximo domingo já era para ter acontecido logo nas oitavas. E é aqui que dividimos as coisas e entendemos como derrubar a mística de uma Copa do Mundo, aquela competição cujas finais entre Alemanha x Argentina, Brasil x Itália, Alemanha x Itália, Brasil x Alemanha são sempre as mais esperadas. Afinal de contas é futebol, é esporte e queremos que os melhores levantem a taça. Caso nosso time não esteja em campo, é claro.

França: os favoritos que podem perder

Geração francesa pode conseguir o segundo título do país e igual Argentina e Uruguai

Não há como negar o favoritismo dos franceses, que buscam o segundo título com um esquadrão jovem e talentoso, bons jogadores em todas as posições e praticamente sem ponto fraco. Lloris é um grande goleiro, Pavard está voando na lateral direita, a zaga se acertou durante a Copa, Kanté manda no meio campo com excelente apoio de Pogba, e Mbappé… bem… este é um capítulo à parte. Com 19 anos empurra o time ao ataque com suas arrancadas e excelente toque de bola.

O camisa 10 chega em excelente forma ao torneio, aquele que faz com que as pessoas se encantem por seu bom futebol. No último jogo contra a Bélgica, Mbappé poderia ter inclusive carimbado seu passaporte para a final do prêmio de melhor jogador do mundo caso Giroud tivesse marcado após belo passe de calcanhar, mas a bola não entrou. E agora nós temos mais uma chance de vê-lo em campo em um jogo de peso tão grande. Talvez o garoto seja o grande diferencial para a final de domingo.

Mas é bom que a França não se perca em seu favoritismo. Após vencerem o Brasil na final da Copa de 1998 no Stade de France, os franceses passaram a se sentir imbatíveis naquele lugar. Até que veio a final da Eurocopa de 2016 no mesmo estádio contra Portugal e a história foi outra. Pogba, hoje um dos líderes desta equipe, admitiu em entrevista na Rússia que pensava que aquela final já estava ganha. E agora o alerta está aceso para não repetir o mesmo erro.

Croácia: a surpresa que pode ganhar

Croatas comemoram passagem para a final da Copa mas querem muito mais no domingo

Uma grande história se constrói com bons heróis. E heróis precisam ser conhecidos. E o cartão de visita da Croácia, após uma discreta vitória sobre a Nigéria, foi o 3×0 em cima da Argentina. Foi o jogo que chamou atenção para o bom time em um momento em que muito se falava de Messi, Ronaldo e Neymar, até então as atrações do Mundial. E foi realmente um belo jogo, onde pode-se dizer que os argentinos não viram a cor da bola. Muito disso se deve à boa organização da seleção croata, que estreou na Copa o seu belo uniforme preto.

Aí veio o mata-mata e entraram em campo os salvadores da pátria. Contra a Dinamarca a primeira prorrogação e pênalti no último minuto. No entanto, Luka Modric perdeu a cobrança e o jogo foi decidido nas penalidades. Subasic brilhou, defendendo duas cobranças. Contra a Rússia eles jogaram contra a torcida e mais uma vez, após 1×1 no tempo normal, levaram o jogo para a prorrogação. Contra tudo e contra todos saíram na frente no prolongamento e levaram um duro gol do brasileiro Mário Fernandes no último minuto. Pênaltis e novo triunfo.

Aí veio a já falada vitória sobre a Inglaterra. Depois de sofrer gol de falta nos minutos iniciais, empatar e novamente levar um jogo para a prorrogação, esse jogo conquistou a todos e mostrou ao mundo uma Seleção que, sim, tem Modric como seu principal, mas também tem Subasic, Vida, Kovacic e as estrelas Mandzukic e Rakitic, mostrando o potencial de um grande elenco e a importância de se formar um bom conjunto. Cabe aqui lembrar que a preparação dos croatas para a Copa não foi boa, a estrutura do futebol deles não é lá essas coisas e o técnico foi trocado antes do último jogo das Eliminatórias, quebrando várias das regras que se tenta impor para um bom desempenho. E a ideia aqui não é vencer a ideia de um futebol desorganizado, mas sim lembrar que o jogo se decide dentro das quatro linhas. Ainda bem.

E é dentro das quatro linhas que a final de domingo promete ser um grande jogo de futebol, aberto e bem jogado, como toda final merece. E ambos agora sobem um degrau na escala do futebol. A França em sua terceira final em 20 anos. Pode alcançar Argentina e Uruguai em títulos, o que não é pouca coisa. E a Croácia pode entrar no grupo que tem a Inglaterra, a própria França e a Espanha como campeãs de 1966, 1998 e 2010, respectivamente.

E ambos serão bem recebidos pela comunidade do futebol.

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