Jimmy Hogan: o revolucionário renegado pelo seu país, mas eternizado no futebol de troca de passes

O MESTRE ESQUECIDO

Jimmy Hogan: um verdadeiro professor no meio do futebol (Foto: Getty Images)
Gabriel Ferreira – MG

No início, não existia organização. O jogo originário da Grã-Bretanha – mas que se espalhava na mesma medida em que os ingleses exportavam e importavam mercadorias do exterior – se resumia a demonstração de força e virilidade, onde um indivíduo tentava carregar a bola enfrentando toda a defesa até a baliza do oponente. O desenvolvimento tático se mostrava necessário para o amadurecimento daquele que viria a ser o futebol no formato que conhecemos. Eis que surge, diretamente de Lancashire, no Reino Unido, Jimmy Hogan.

Nascido no final do século XIX, Hogan se mostrava à frente do seu tempo já na sua modesta carreira como atleta. Passando por Rochdale, Burnley, Fulham e Bolton, todos da Inglaterra, ele acreditava na repetição e no treinamento como ferramentas para alcançar a excelência na prática do futebol. Hoje esse pensamento pode parecer óbvio, mas, na época, era senso comum de que os treinamentos com bola deveriam ser evitados no dia-a-dia dos clubes, pois faltaria desejo pela prática nas partidas aos finais de semana.

Se, como jogador, Jimmy mostrava talento mas não era brilhante, como treinador ele marcou época. Em 1910, o clube holandês Dordrecht foi o primeiro de sua nova carreira. Adepto do estilo escocês de futebol, que privilegiava a troca de passes e o jogo coletivo, em detrimento à maneira inglesa de enxergar as coisas, adotada com um sistema de chutes para o campo de ataque e imposição física, Hogan também se destacava pela maneira com que passava suas ideias para os atletas amadores que dispunha na equipe holandesa. Ele se comportava como um verdadeiro professor, explicando suas táticas em sala de aula e desenvolvendo o controle de bola de seus comandados, algo inédito até então.

O sucesso foi grande, mas sua grande oportunidade apareceria em 1912, após conhecer outro revolucionário, mas este, da Áustria: Hugo Meisl. Um dos pioneiros na federação austríaca de futebol, Meisl se identificava com o jeito de Hogan enxergar o esporte, e o ofereceu o cargo de treinador da seleção austríaca, com enfoque na participação do país nos Jogos Olímpicos de Estocolmo que aconteceriam naquele ano. A Áustria, treinada pelo inglês, estreou de maneira empolgante nas Olimpíadas, vencendo a Alemanha por 5 a 1, mas na fase seguinte foi eliminada pela Holanda ao ser derrotada por 4 a 3.

Time austríaco de Jimmy Hogan e Hugo Meisl (Foto: Getty Images)

Foi o suficiente para o treinador conseguir convencer a federação a ser mantido no cargo para a preparação para os Jogos de 1916, quando, além de trabalhar com a equipe olímpica, ele também treinaria as principais equipes de Viena, capital austríaca. O trabalho fluía, a cidade acolhia Jimmy Hogan, que retribuía transmitindo conhecimento futebolístico. Tudo parecia caminhar bem, até que a guerra eclodiu em 1915.

Hogan não teve nem mesmo tempo hábil para voltar para Inglaterra e foi preso como cidadão estrangeiro na Áustria e logo foi enviado a um campo de concentração na Alemanha. Após 18 meses confinado, ele voltou a trabalhar com futebol ao ser convidado, após intensas negociações, para treinar o MTK, de Budapeste. Com um elenco recheado de jovens “colhidos” na cidade pelo próprio treinador, o clube foi campeão na primeira edição do campeonato ocorrido após o início da guerra, na temporada 1916-1917. O MTK viria a ser campeão nas nove temporadas seguintes, mas sem seu técnico e idealizador, que voltou para sua terra natal, Lancashire, logo após o fim da guerra.

Empregado fora do futebol em solo inglês, Hogan resolveu pedir ajuda financeira à Associação de Futebol Inglesa, que auxiliava os profissionais afetados durante a guerra. No entanto, Frederick Wall, secretário da Associação, o tratou com indiferença e se limitou a lhe dar três pares de meia e afirmar “nossos soldados utilizavam essas na frente de batalha”. Foi imperdoável. Como consequência, o país que foi berço do nascimento de Jimmy Hogan não teve o privilégio de ser influenciado por um dos maiores treinadores de todos os tempos, enquanto o restante do continente se desenvolvia a partir das ideias do professor.

Já distante de seus anos de glória, a influência do treinador inglês seria notada anos depois. Inicialmente com o Wunderteam de Hugo Meisl, magnífica seleção austríaca que foi vencida apenas pela primeira grande seleção italiana, campeã do mundo em 1934. Em seguida, com a Hungria que conseguiria, de maneira cruel e acachapante, mostrar o quanto a Inglaterra foi infeliz ao desprezar Jimmy Hogan.

Treinada por Gustáv Sebes, discípulo de Hogan no MTK, a melhor seleção húngara de todos os tempos impôs, em 1952, no melhor estilo da “escola Hogan”, a primeira derrota da Inglaterra para um esquadrão de fora da Grã-Bretanha. Diante de uma multidão de 100 mil torcedores ingleses que mal podiam assimilar o que acontecia no mítico Wembley, os criadores do futebol foram massacrados por 6 a 3. Como se não fosse suficiente, a revanche proposta pelos derrotados meses depois, em Budapeste, demonstrou ainda melhor a imensa distância entre o futebol praticado pelas duas equipes, decretando outra goleada húngara, dessa vez por um placar ainda maior: 7×1.

Entrada em campo naquela partida que marcaria história (Foto: Getty Images)

“Jogamos como Jimmy Hogan nos ensinou, ele foi quem nos passou tudo que entendemos sobre futebol. Quando a história do nosso futebol for escrita, seu nome virá em letras de ouro”. Assim resumiu a importância do treinador inglês o comandante da seleção Húngara, Gustáv Sebes. O que ele não esperava era que o nome de Hogan fosse ficar à margem da história popularmente contada até mesmo nos locais mais influenciados por seu mentor. Metódico e revolucionário, o desprezo foi o preço a se pagar por estar tão à frente de seu tempo.

Fontes: Imortais do Futebol; Futebol Magazine; The Guardian; Livro “A Pirâmide Invertida”, de Jonathan Wilson

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