Polêmica e histórica, a Libertadores é do River Plate

River Plate bate Boca Juniors por 3 a 1 e conquista a Libertadores pela quarta vez em sua história

Ponzio e Galhardo erguem a quarta Copa Libertadores da história do River Plate (Foto: AP /Thanassis Stavrakis)

Wagner Ponce – RJ

Foram necessárias cinco datas, cinco atos para chegarmos a definição do campeão da Copa Libertadores da América de 2018. Após inúmeras polêmicas, o River Plate venceu o Boca Juniors em Madrid por 3 a 1, e sagrou-se vencedor do maior Superclássico da história do futebol argentino.

Foram quase 11 meses de Libertadores na temporada desse ano, a competição que teve seu início lá em 22 de janeiro, finalmente, chegou ao seu fim no último domingo, dia 09 de dezembro. Difícil de se imaginar em sua rodada inicial, ainda pela fase pré-libertadores, que teríamos uma edição tão conturbada e com o seu último ato disputado em Madri, justamente a última final a ser realizada com partidas de ida e volta.

Dentro de campo tivemos muito futebol, com partidas emocionantes e a garra típica do nosso futebol sul-americano mas, fora dele, o que vimos foi um grande jogo de bastidores, muitas vezes articulados pela própria Conmebol.

Não é de hoje que a entidade responsável por tomar conta do futebol da América do Sul causa revolta a boa parte dos espectadores, torcedores e jornalistas aqui do nosso continente. Mas a Libertadores desse ano colecionou uma quantidade absurda de episódios onde, com toda certeza, levantam inúmeras incertezas da capacidade da Conmebol em comandar o futebol sul-americano.

A primeira grande polêmica aconteceu contra o Santos, no duelo contra o Independiente da Argentina, ainda pela fase de oitavas de final. A equipe brasileira foi punida por ter escalado o meio-campista Carlos Sanches no jogo de ida em Avellaneda. Segundo a diretoria do Peixe, o clube não foi avisado pela Confederação Sul-americana sobre a suspensão do jogador. Outro argumento usado, é que na ocasião do centenário da Conmebol, em 2016, em que houve uma anistia a todos os jogadores punidos na época, tendo suas suspensões foram revogadas, com a exceção apenas dos casos de doping, agressões físicas a árbitros, racismo, manipulação de resultado e corrupção.

Ao final de todo o imbróglio, os paulistas foram punidos, e um empate sem gols no jogo de ida acabou sendo revertido em uma derrota por 3 a 0 nos tribunais. Outro detalhe, a decisão da Conmebol só saiu no dia da realização da partida da volta.

Ezequiel Cerutti e Carlos Sanchez na partida de ida em Avellaneda (Foto: Juan Mabromata/AFP)

O caso de Carlos Sanches poderia não ser nenhum absurdo, se não houvesse acontecido algo semelhante durante a competição. Bruno Zuculini, meia do River Plate, atuou por sete partidas sem ter cumprido as duas partidas de suspensão que devia desde 2013. Nesse caso, a entidade não puniu o clube, assumindo que houve um “erro administrativo”, por isso não seria justo que o time dos “Millonários” fosse penalizado.

Já classificado para as semifinais, e após ser derrotado no jogo de ida em Buenos Aires, o River se envolveu em outra polêmica. Mesmo suspenso, o treinador do time argentino Marcelo Gallardo foi flagrado com um rádio se comunicando com seu assistente no gramado, na partida da volta, além de ir aos vestiários durante o intervalo do duelo.

O Grêmio, adversário na ocasião, tentou recurso para anular a derrota em casa por 2 a 1, mas apenas Gallardo foi punido, recebendo nova punição de quatro jogos.

O outro finalista da Libertadores 2018 também não passou impunimente frente a tantas confusões. Numa situação semelhante ao caso do seu adversário na final, o Boca Juniors escalou de maneira irregular o atacante Ábila, no jogo de oitavas de final contra o Libertad. O jogador deveria ter cumprido um jogo de suspensão, ainda em decorrência da expulsão sofrida na final da Copa Sul-americana de 2015, quando ainda atuava pelo Huracán. A Conmebol alegou que o clube paraguaio perdeu o prazo de 24h após o jogo, para realizar a solicitação dos pontos da partida junto ao tribunal.

Na partida contra o Cruzeiro, ainda pela fase de quarta de final, o zagueiro Dedé foi expulso após uma dividida normal, considerada pela analistas de arbitragem, contra o goleiro Andrada, do Boca Juniors. O lance foi exibido no VAR para o ábitro da partida, o senhor Éber Ubaldo Aquino, que interpretou a jogada como violenta, e expulsou o defensor sumariamente. Algo tão controverso, que a própria federação retirou a suspensão automática do zagueiro para a partida de volta. Mas o clube mineiro já havia perdido a partida de ida por 2 a 0, e o estrago já estava feito.

Éber Ubaldo Aquino recorrendo ao VAR no La Bombonera (Foto: AFP)

Depois de tantos episódios e julgamentos realizados na sede da Conmebol, em Luque, no Paraguai. Boca Juniors e River Plate chegaram para disputa da “final do fim do mundo”, como a imprensa argentina tratou de promover o duelo final da Libertadores da América. Por ser considerada uma das maiores rivalidades do futebol mundial, não seria impossível imaginar algo diferente para um clássico dessa grandeza.

Tudo pronto para que no dia 10 de novembro o primeiro embate fosse realizado na consagrada La Bombonera, onde até o presidente da Argentina chegou a se manifestar a favor de estádio dividido entre as torcidas para os dois jogos, mas devido as orientações da própria polícia local, foi mantida a regra de clássicos sendo disputados com espectadores do time da casa apenas.

Se os “Deuses do Futebol” têm algum poder quanto à definição de resultados ou qualquer coisa sobrenatural relativa ao esporte mais amado do mundo, com toda certeza eles estavam presentes no dia do primeiro ato do Superclássico na final da Libertadores. Chuvas torrenciais caíram sobre Buenos Aires durante as horas que antecederam o jogo e a partida foi adiada para o dia seguinte.

No domingo, um dia que já é muito atípico para um jogo de competições continentais aqui na América do Sul, Boca e River entraram em campo sob um clima tenso para a realização do segundo ato dessa grande final. Fizeram um grande jogo, limpo, disputado e digno de uma decisão tão aguardada. O placar de 2 a 2 só refletiu ao que se esperava, e deixou o duelo totalmente aberto para o jogo da volta, 15 dias depois no Monumental de Nuñez.

Benedetto comemorando o segundo gol do Boca Juniors no La Bombonera (Foto: EFE)

Mais de dois mil jornalistas do mundo inteiro solicitaram credenciamento para o terceiro ato da final, que seria realizado no sábado dia 25 de novembro. Buenos Aires era puro fervor e uma onda de ansiedade pairava sobre toda a capital porteña. O estádio do River já estava completamente lotado 2h antes do jogo. Nos bares, estabelecimentos e residências da cidade, pessoas concentravam seus olhares diante de TVs para saber quem seria o dono do argumento maior nas resenhas de futebol de todo o país. Foi diante desse cenário que o o ônibus que levava o time do Boca Juniors ao campo de jogo, foi atacado por torcedores rivais com pedras e garrafas. Cenas lamentáveis diante dos olhos de quem esperava uma partida com as mesmas boas emoções do primeiro jogo. Daí em diante, houve apenas um show de horrores protagonizado pelos organizadores do evento, que conseguiram tirar o brilho e a boa energia do espetáculo, quase da mesma forma que os mesmos que agrediram aos jogadores do time Xeneize.

Veja as cenas de apedrejamento ao ônibus do Boca Juniors nas proximidades do estádio:

Primeiramente, a partida foi adiada em 1h, depois mais 1h e houve mais um terceiro adiamento em mais 1h30min. Ao final, o jogo foi transferido para o dia seguinte, no mesmo local, mas ainda sem a certeza de ser realizada com portões abertos. Quando boa parte do público já se encontrava nos arredores do Estádio Monumental de Nuñez, a Conmebol anuncia o adiamento desse quarto ato, sem nem ao menos definir uma data para a realização do jogo.

Após dias de indecisão e reuniões realizadas na sede da confederação sul-americana, a data e o local da partida não haviam sido escolhidos. Era certo que aconteceria no dia 08 ou 09 de dezembro, e que o River Plate não poderia mais realizar o embate final em seus domínios e, possivelmente, fora da Argentina. Assunção, Recife, Montevidéu, Santiago, Chapecó, Belo Horizonte, Doha e Miami foram as primeiras cidades especuladas como sede do jogo decisivo. Só no dia 29 de novembro, finalmente, um posição definida foi tomada. A partida final seria jogada em Madri no dia 09 de dezembro.

Nada poderia ser mais coerente por parte da Conmebol, do que levantar mais uma polêmica até na hora de encontrar uma cidade para sediar o último jogo da Copa Libertadores da América. Tiraram a final da terra dos libertadores para coloca-la na terra dos seus colonizadores, que por anos sugaram todas as riquezas dos países latinos. Nada poderia combinar mais com a principal entidade do futebol sul-americano.

Voltando ao futebol, um grande esquema de segurança foi montado para o quinto ato, onde até os vestiários e o contato pré-jogo entre as delegações foram cortados. O maior já visto na Espanha para uma partida. Vira-vira, prorrogação, expulsões, tensão de ambos os lados, golaços e tudo que o mundo poderia esperar de um jogo com tamanha magnitude. Tudo que dependeu dos principais responsáveis pelo espetáculo, os jogadores, aconteceu da melhor forma possível. Quando tudo é visto apenas pelo panorama dos atletas, tivemos tudo que era esperado de bom para um dos principais jogos de futebol que o mundo da bola poderia esperar.

Confira os gols e os melhores momentos da partida decisiva da Libertadores da América:

Em 2019 tudo será diferente em relação a final. Entramos na era das decisões com jogo único, com a decisão já marcada para Santiago, no Chile. Todos gritam pela volta do futebol raiz, com o sangue latino que peleia em busca da pelota, mas que as atitudes sejam mais dignas por conta dos que regem o esporte, para que nas arquibancadas e aquelas que as frequentam, possam dar o retorno daquilo que recebem.

Viva ao futebol latino, e um grande viva aos Libertadores da América!

 

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