Moça Bonita: o estádio mais quente do Brasil

Créditos: Davi Ferreira
  Por Davi Ferreira, RJ

Quando se fala de estádios no Brasil, é automático que se lembre dos gigantes, como Maracanã, Mineirão, Pacaembu e Beira-Rio, além dos outros da Primeira Divisão nacional. Mas o futebol brasileiro não depende apenas dos palcos que abrigam regularmente os principais times do nosso esporte, e há muitos outros estádios de menor capacidade, que guardam o espírito do bravo torcedor e a história de equipes que outrora viveram seus momentos de glória, e hoje estão um tanto quanto esquecidos. Só que a história nunca se apaga e precisamos descobri-la.

Revivemos hoje a nossa seção “Templos do Futebol” e chegamos direto à zona oeste do Rio de Janeiro, no bairro de Bangu, para falar de um dos estádios mais icônicos da cidade e quente por inspiração natural, sendo até conhecido nacionalmente por isso: Moça Bonita.

Este templo pertence ao Bangu Atlético Clube e, no papel, se chama Estádio Proletário Guilherme da Silveira Filho. O nome homenageia o ex-presidente do clube, na época da inauguração do estádio, em 17 de novembro de 1947. Ele também era o diretor da Fábrica de tecidos Bangu, a instituição que deu origem àquele time de operários, em 1904.

Créditos: Site Trivela

A região onde está localizado também faz referências ao chamado Dr. Silveirinha, e há uma praça e uma estação de trem vizinhas e de mesmo nome. O Bangu se mudou para essa região após precisar abandonar seu antigo estádio, o campo da Rua Ferrer, que era usado desde 1906 e precisou ser fechado em 1943. Aquele novo local tinha uma fazenda e era conhecido como “Moça Bonita”, e este apelido acabou “pegando” no novo estádio.

Hoje em dia, a sua capacidade oficial nos jogos é para 9.024 pessoas, segundo a CBF. Lá no seu plano de construção, fantasiava-se uma capacidade máxima de 60 mil pessoas. Voltando à realidade, 15 mil compareceram para a primeira partida do estádio, um amistoso entre Bangu e Flamengo, realizado em 28 de março de 1948, vencido pelo time da casa por 4 a 2. O primeiro a fazer gol por ali foi o centroavante alvirrubro Joel. Nessa partida, o lendário zagueiro Domingos da Guia fazia a reestreia pelo seu time de origem, onde é ídolo e se aposentou em 1950.

A história conta que, em 14 de março de 1970, em um grande amistoso entre o Bangu contra, simplesmente, a seleção brasileira prestes a ganhar o tri no México, Moça Bonita recebeu mais de 32.000 pessoas, o recorde do estádio. Alem do inimaginável público para os padrões de hoje, ali pisaram caras como Pelé, Jairzinho, Rivelino e Carlos Alberto Torres. Para estatística, o placar foi 1 a 1.

Créditos: arquivo histórico

O Bangu teve seus momentos de auge nos anos 1960 (em 1966 ganhou o Campeonato Carioca pela segunda e última vez) e nos dourados anos 1980 (fez grandes campanhas no Estadual e foi vice-campeão brasileiro de 1985). Nessa época, é verdade que o alvirrubro frequentava muito o Maracanã, o grande palco do futebol da cidade. Entretanto, Moça Bonita sempre era um porto seguro e um alçapão para o clube, e ali as vitórias eram quase certas, contra times pequenos e grandes.

A fase boa ficou para trás e hoje o time e o estádio não vivem de grandes glórias. Na atualidade, quem frequenta jogos no estádio sabe que os públicos dificilmente superam o de 1.000 pessoas. A qualidade dos jogos e dos times que se apresentam não são grande fator atrativo, e o calor de 40 graus dos verões banguenses também afasta o torcedor. O último jogo de destaque ali foi a vitória de 1 a 0 do Vasco sobre a Portuguesa da Ilha do Governador no mês passado, em jogo da Taça Guanabara, quando a temperatura estava em 41 graus, e gerou a tradicional cena de torcedores escondidos atrás dos postes dos refletores, pegando uma sombrinha.

Créditos: FIlckr do Vasco

Quem mais joga ali é o Bangu (obviamente) e outros times menores do Rio de Janeiro, porque Moça Bonita ainda é um dos estádios pequenos com melhor estrutura da cidade. Recentemente, ele recebeu reformas e conta até com assentos do antigo Maracanã, e poderia tranquilamente receber mais jogos dos times grandes, se eles tivessem mais interesse.

Assistir jogos nesse ícone suburbano é uma experiência bem diferenciada e indicada para todo fã do futebol “raiz”. Onde já passaram grandes lendas do futebol nacional, o futebol respira longe dos holofotes. Só é válido lembrar que você não use calça e chegue cedo para garantir lugar, no caso embaixo da sombra das tribunas deste templo do futebol.

Créditos: Davi Ferreira

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