O campeão da Guanabara, cuja taça é mero detalhe

GIGANTE DA COLINA FOI CAMPEÃO DENTRO E FORA DE CAMPO

Torcida do Vasco comemora o título da Taça Guanabara - Rafael Ribeiro/ Vasco
Por Léo Leal, RJ

Tivemos, de longe, a pior Taça Guanabara da história. Além do já esperado baixo nível do início de temporada de quem pouco se preparou, dos gramados precários e jogos no calor de Bangu às 16h, houve ainda uma tragédia que mexeu com todo futebol carioca, ameaça de tempestade, jogos adiados, vendas suspensas e, por fim, o imbróglio esdrúxulo que fez a final se iniciar sem testemunhas.

Dito isso, seu troféu, a cada ano menos valorizado devido ao regulamento grotesco do Campeonato Carioca, tornaria-se mera decoração. E para que ele ganhasse algum valor, deveria ser erguido por quem mais mereceu levá-lo. Foi o caso.

A pior Guanabara já vista torna-se um dos títulos mais simbólicos da história do Vasco da Gama, o que já viria mesmo se perdesse a final. Seu merecimento vai muito além dos 100% de aproveitamento conquistados na bola. O clube já era o maior vencedor desta disputa bem antes da final.

Seu maior rival passou pela tragédia mais grave de toda sua existência, o que, entre tantas consequências bem mais dolorosas, também jogou fora qualquer clima para futebol no Rio de Janeiro antes do Carnaval. E neste episódio, o Gigante de Colina relembrou o porquê desta alcunha.

Embora poucas e raras, há coisas muito maiores que uma rivalidade. Ela deve existir, é necessária, mas sempre acompanhada de grandeza e caráter. Todo suporte oferecido ao Flamengo após a tragédia foi uma das maiores explicações na prática do que é futebol. E do que é o Club de Regatas Vasco da Gama.

Gigante. E até flamenguista, no fundo, sabe disso. Não fosse, não seria seu rival. Um precisa da existência do outro para ser mais forte. E sabendo seu tamanho, conhece também a importância de sua camisa além da esfera esportiva. Mesmo sendo confundida, por muito tempo, com o vírus que a comandou e afundou sua imagem num poço, a instituição mostrou de quem se trata.

Qualquer flamenguista com o mínimo de coração agradece ao Vasco. Qualquer vascaíno com um mínimo de decência tem orgulho do que foi feito.

Em 1924, a resposta histórica. Em 2019, a resposta a si mesmo, para a sua história. Uma injeção de auto-conhecimento, a volta às origens, o porquê de existir, pelo quê está ali.

Muito mais que uma Taça Guanabara, a honra. Um troféu que, mesmo sem muita importância para currículo, ganha valor por objetificar a semana na qual o clube revelou sua certidão de nascimento a quem só o conhecia pela foto 3×4 de uma identidade falsificada.

E essa conquista já estava garantida, mesmo que alguém desviasse aquela falta do Danilo.

Muito maior que um turno de um Estadual jogado às traças, um esterco que o comandou por tanto tempo, uma picuinha política por lado de arquibancada e o grito homofóbico de um cidadão que não consegue ser lembrado por sua competência há tempos. Menor apenas que a vida de dez meninos, porém enorme por saber o seu lugar.

Seu rival também sabe, por isso alocou na galeria sua camisa ao lado das maiores conquistas.

São Januário ainda não sorri, por luto, mas em seu ombro a Gávea pode chorar. A Colina Histórica se lava, descarrega. Há velhos novos ares, há Vasco da Gama em sua essência, como sua fama assim se fez.

E, se é que faz alguma diferença, com mais uma taça.

Feliz Vasco novo. De novo.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*