O Cruzeiro x Vasco que se tornou um Edmundo x Romário

Romário saiu com a vitória e Edmundo com a torcida...e uma carta de demissão

Hugo Netto | MG

Quando se fala em “cenas lamentáveis”, dois dos nomes que mais saltam à mente de qualquer um são Romário e Edmundo. E em 2001, pela 15ª rodada da primeira fase do Campeonato Brasileiro, o Vasco – ou melhor, o Baixinho, goleou o Cruzeiro, do Animal, por 3 x 0, em São Januário.

A Corte da Colina

Tudo começou no ano anterior, quando Romário tomou a braçadeira de capitão de Edmundo, na época companheiro de equipe, iniciando já a troca de farpas nas entrevistas. As coisas esquentaram mais ainda quando, em jogo válido pelo Campeonato Carioca, contra o Bangu, o ex-capitão pediu para cobrar um pênalti, sendo recusado pelo ex-amigo. A cobrança foi no travessão e, ainda nas entrevistas dentro de campo, Edmundo se referiu a Eurico como o rei, e a Romário como o príncipe.

Antes de se tornarem desafetos, Romário e Edmundo formaram uma dupla matadora no Vasco.

Na partida seguinte, contra o Olaria, o “Príncipe” fez três gols, assumiu a artilharia do Campeonato Carioca e aproveitou para acrescentar, também nas entrevistas pós-jogo, outro personagem à realeza de São Januário: Edmundo seria o bobo-da-corte.

Da parte dele, ainda houve uma tentativa de reaproximação, quando criticou a torcida vascaína por vaiar Romário, dizendo que ele demonstrava dentro de campo merecer mais carinho. Mas não adiantou, mesmo vaiado, dispensou a “ajuda”, dizendo que agora “a guerra vai ser pra sempre”, e ainda avisou: “Quem compete comigo, perde”.

Após ficar sem jogar por dois meses, graças à rixa, Edmundo foi negociado ao Santos, depois ao Napoli, da Itália, até chegar à Toca da Raposa, em 2001.

O jogo se inicia fora do campo

Embora naquele momento nenhum dos dois times estivessem em boas posições na tabela (Vasco em 17º e Cruzeiro em 20º, quando haviam 28 times no campeonato), criou-se muita expectativa para aquele embate, devido ao fator extra-campo.

Edmundo, vascaíno assumido, não deixou de lado a paixão pelo clube de coração em nenhum momento, tanto que, quando perguntado como se sentiria se marcasse naquela partida, disse que esperava que não o fizesse, e que, se fizesse, seria por puro profissionalismo e não comemoraria, por se tratar de uma derrota pessoal sua como torcedor do Vasco.

Além disso, sua relação com o novo treinador, Marco Aurélio, não era das melhores, graças à outra declaração, onde dizia preferir Vanderlei Luxemburgo, que acabou garantindo-o um lugar no banco de reservas. Juntando tudo isso, se deu um fato curioso: parte da torcida da casa, que ainda continuava “de mal” com Romário, preferiu apoiar seu desafeto, recebendo os times com gritos de “Ah! É Edmundo! ”.

Edmundo entrou para a seleta lista de jogadores que foram ovacionados pela torcida adversária.

O “vencedor” da rixa vascaína demonstrou seu descontentamento nas entrevistas antes mesmo do jogo começar, o que deve ter servido de motivação para que desse a resposta dentro de campo.

A Partida

Se um pênalti deu início à briga, também foi o responsável por abrir e encerrar esse confronto marcante. Maicon fez falta dentro da área em Gilberto e, dessa vez, Romário não teve que tirar a bola de ninguém para fazer a cobrança e abrir o placar. Edmundo entra no lugar de Cléber Monteiro, mas, em vez de dar novos ares ao jogo, assiste o rival marcar mais duas vezes, com o recurso e a categoria típicos do Baixinho dentro da área.

Para definitivamente cair nas graças da torcida adversária, Edmundo ainda teve a chance que tanto queria, no final da partida, de cobrar um pênalti. Perdeu. O goleiro Hélton não teve dificuldades para defender a cobrança no lado esquerdo do gol. O atacante ainda tentou aliviar de forma (pouco) convincente na saída: “Mesmo se eu fizesse, não ia valer de nada. “

O desfecho se deu de forma tão incomum quanto todo o desenrolar: o que se esperava ser o herói da torcida após buscar a vitória com 3 gols, se despediu fazendo movimentos circulares com os dedos médios para a torcida. Enquanto o improvável herói, agora ainda mais amado pela torcida carioca, recebia seus aplausos e os retribuía. Mais tarde, logo no vestiário, foi comunicado de que seus serviços já não eram mais necessários na equipe mineira.

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