O doce sabor amargo da surpresa

CROÁCIA CHEGA NA FINAL E FAZ HISTÓRIA

Por Léo Leal, RJ

Moscou, dia 15/07. França e Croácia disputam a taça mais desejada deste globo, algo inimaginável 30 dias atrás.

Previa-se Brasil, Alemanha, Espanha, a própria França, a tão falada geração belga. Ignorava-se a Croácia.

Não é hora de se fazer de oportunista profeta e tirar onda com “eu avisei”, só porque talvez em alguma ocasião alguém tenha dito que a seleção croata era boa. Isso ninguém negava, discordava. Isso também é diferente de dizer que a Croácia chegaria à final.

Ninguém, antes da Copa, previa. Ponto.

Mas ela chegou, com vitórias suadas, pênaltis e jogos “feios”. A partir daí, tivemos a oportunidade de ler, em veículos de mídia e redes sociais, certas conclusões:

– A Copa foi feia!

Ok. Os jogos, em média, realmente não foram um primor, principalmente se comparados a 2014. O melhor deles foi na primeira rodada, um empate entre dois times que posteriormente se classificariam no grupo (Portugal e Espanha). Logo, a melhor partida em nível técnico teve nula utilidade.

– Croácia pegou uma chave fácil!

Sim. Após o fim da fase de grupos, já não era tão absurdo apontar os croatas na final. A única das favoritas no seu lado era a Espanha, que não trazia confiança pelos tantos problemas que passava.

– Copa sem graça! Olha essa final! Cadê as grandes?

Chegamos. Essa é a visão que viemos aqui contestar.

Que nós tivemos até no mata-mata uma penca de jogos feios, todos concordam. Mas por que a Copa torna-se chata por isso? Quem foi que decretou que apenas técnica determina o nível de emoção e memória no futebol?

Desde quando o esporte mais popular do planeta se resume apenas à beleza da prática?

Futebol é o Barcelona de 2011, o Real Madrid do último triênio, o Milan de 2007. Mas também é o Eintracht Frankfurt levando a Copa da Alemanha, o Wigan ganhando a FA Cup, o Watford eliminando o Leicester na Série B Inglesa com um gol no último minuto após o goleiro pegar um pênalti. É o próprio Leicester ganhando a milionária Premier League.

Futebol é o Santos de Pelé, Flamengo de Zico, São Paulo de Raí. Mas também é o Moto Clube ganhando o Maranhense sem receber salário, o Fortaleza conseguindo voltar à Série B depois de seis anos batendo na trave, o Ceará dando a arrancada mais incrível de sua história pra evitar o rebaixamento. É o Santo André calando o Maracanã, a final do Paulista sendo Bragantino x Novorizontino.

Copa do Mundo é Pelé, Garrincha, Maradona, Beckenbauer, Zidane, Ronaldo. Mas também é Baloy.

É o Brasil de 1970, mas também a Costa Rica de 2014. É a Alemanha metendo 7×3 na Hungria de Puskas, mas também o Suarez metendo a mão na bola em cima da linha.

Pergunta pra algum senegalês se a única seleção que encantou em 2002 foi o Brasil. E pro ganês, se só a Espanha prestou em 2010.

Futebol, graças aos seus deuses, não é exclusivo, nem excludente. Camisa ganha jogo, mas nem todos. Ele é amplo.

Futebol é história, é a exceção, o improvável. A Croácia é a história em 2018. Como poderia ser a Rússia, a Suíça, o Japão.

Não venha pedir, logo numa Copa do Mundo, esse CHAMPIONS-LEAGUISMO recente de manter os mesmos protagonistas a cada edição. Poderiamos ter, claro, mas por que não a Croácia? Por que não uma Rússia?

Camarões de Milla, Senegal de Diouf, Costa Rica de Campbell, Gana de Gyan, sua própria versão em 1998 de Suker, tantas outras escritoras do improvável e ele, o futebol, agradecem e abraçam a Croácia de Perisic. E fazem o mesmo à imprevisível e inesquecível Copa de 2018, seja qual for o resultado domingo.

Porque uma França favorita e campeã, mesmo sendo “mais do mesmo”, também seria futebol.

Ele é de todos, mesmo. Ele é nosso.

Bom churrasco a você, que menospreza essas últimas semanas de futebol, mas desejaria estar em Moscou domingo.

Boa final, boa Copa.

Ainda há Copa. Sigamos.

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