O primeiro “não” brasileiro ao Apartheid e a Fita Azul: histórias da Portuguesa Santista

A história da Briosa contra o regime excludente da África do Sul

Delegação da Portuguesa Santista rumo à excursão para fora do país (Foto: Reprodução/Acervo da AA. Portuguesa/Cosmo Editora)
Por Max Galli, SP

Apartheid, palavra que em africâner significa separação, foi um regime de segregação racial que perdurou na África do Sul durante 1948 e 1994, quando foi governado pelo Partido Nacional, formado pela minoria branca do país. Quando iniciou a tal gestão, a legislação separava os habitantes entre brancos, negros, indianos e de cor. Com o andar do tempo, o governo segregava locais para residir, serviços de saúde, de educação e vários outros,c dando aos negros atendimentos piores que os dos brancos.

O sistema trouxe violência contra os negros e um significativo movimento de resistência interna que culminou numa série de revoltas populares e protestos que fizeram com que o governo se tornasse totalitário, já que foi banida a oposição, além de prisões de líderes anti-apartheid como Nelson Mandela.

Entretanto, no outro lado do Oceano Atlântico, um time de futebol da cidade de Santos (SP) se preparava para viajar para a África numa excursão para jogar com equipes e selecionados de Moçambique e Angola (na época ainda colônias lusitanas) e África do Sul. A Portuguesa Santista, que vinha de uma excursão em 1950, de Portugal, estava ainda mais forte para encarar as novas aventuras.

Em 31 de março de 1959, a bordo do navio holandês “Boissevan” e após 13 dias de viagem marítima, a equipe atracava na África. Dentre os dias 13 de abril e 28 de maio, a Briosa fez 15 partidas e venceu todas, conseguindo assim a condecoração da “Fita Azul”. A premiação da CBD (Confederação Brasileira de Desportos, antiga CBF) era dada como forma de honraria aos clubes que excursionavam para fora do Brasil e voltavam com, no mínimo, 10 partidas de invencibilidade. Era um dos, se não o maior, título que uma equipe brasileira poderia conseguir na época. “Fita Azul” era um termo usado bastante para embarcações que cruzavam o Atlântico Norte em menor tempo na virada do Século XX. Com isso, ‘fita azul’ começou a ser bastante referido como algo de grande qualidade.

Os jogadores que colocaram seu nome no clube santista foram: Adelson, Atílio, Bota, Carlito, Chamorro, Gerolino, Gonçalo, Grilo, Guilherme, Jorge, Nenê, Nicola, Nivaldo, Perinho, Pichu, Raul Simões e Valdo. As partidas foram:

  • Combinado de Moçambique (5 x 0)
  • Ferroviária de Lourenço Marques (8×0)
  • Seleção de Transwaal (5×1)
  • Desportos de Lourenço Marques (5×0)
  • Seleção de Lourenço Marques (4×0)
  • Seleção União Sul-Africana (5×1)
  • Ferroviário da Beira (3×0)
  • Seleção da Beira (2×0)
  • Ferroviário de Angola (7×1)
  • Combinado de Sá da Bandeira (3×0)
  • Seleção de Luanda (6×1)
  • Combinado Benguelã (4×1)
  • Grupo Desportivo Ambaco (3×0)
  • Seleção de Huambo (6×2)
  • Combinado de Lourenço Marques (9×1).
A Briosa no navio "Boissevan" rumo à África. (Foto: Reprodução/Acervo AA. Portuguesa/Cosmo Editora)
A Briosa no navio “Boissevan” rumo à África (Foto: Reprodução/Acervo AA. Portuguesa/Cosmo Editora)

Mas uma partida que estava marcada não ocorreu, e mal sabiam os jogadores que por não jogarem futebol iriam muito mais além do que somente entrar para a história de um clube de futebol. Eles enfrentariam mais do que 11 pessoas dentro de um campo, teriam que bater de frente contra um regime de segregação racial. Ao desembarcarem na Cidade do Cabo, os três negros que faziam parte da Portuguesa Santista (Nenê, Bota e Guilherme) foram impedidos de entrar no país dois dias antes do jogo contra um combinado local, sendo liberados somente no dia seguinte à chegada. No momento do confronto, a Briosa já se encontrava no vestiário pronta para entrar em campo quando um dirigente do futebol local chegou dizendo que os jogadores negros não poderiam jogar, pois assim determinava a lei do país.

O encarregado de Negócios da Legação Brasileira na Cidade do Cabo, segundo-secretário Joaquim de Almeida Serra, estava no estádio e, representando o governo brasileiro foi contra o impedimento tendo apoio de todo o elenco e disse a máxima: “Ou jogam todos ou ninguém joga!”. No Brasil, o então presidente da República, Juscelino Kubitschek já tinha impedido que partida ocorresse, além de pedir que a Briosa voltasse urgentemente para o Brasil. JK havia recebido um telegrama de Dennis Brutus, um branco sul-africano então presidente da Associação Esportiva da África do Sul, criada juntamente com Nelson Mandela, e que lutava contra o Apartheid.

A recusa da partida teve grande repercussão internacional. O evento se tornou um marco histórico por ter sido a primeira vez em que o Brasil se posicionou publicamente contra o Apartheid. Também foi a primeira vez que um país fora do continente africano se posicionou contra o regime, desencadeando uma série de ações contra o Apartheid ao redor do mundo.

Mesmo com o pedido presidencial de volta para as terras tupiniquins, a excursão continuou e teve um final feliz com a conquista da Fita Azul. Após a viagem, a equipe voltou para Santos no navio holandês “Ruys” no dia 11 de Junho sendo recepcionado por uma multidão no porto e por toda cidade, uma festa gigantesca aconteceu nesse dia.

A festa de recepção dos vitoriosos, dentro e fora de campo, da Portuguesa Santista em Santos. (Foto: Reprodução/Acervo AA. Portuguesa)
A festa de recepção dos vitoriosos, dentro e fora de campo, da Portuguesa Santista em Santos (SP) (Foto: Reprodução/Acervo AA. Portuguesa)

A Portuguesa Santista comemora 100 anos hoje, 20 de Novembro de 2017, dia da Consciência Negra. E quem diria que a equipe causou um impacto gigante a favor da luta de igualdade racial no Brasil, no esporte e na humanidade. A união da Briosa teve festividades dentro de campo e fora dele, isso só mostra o quanto o futebol pode mudar países e trazer benefícios nas relações entre pessoas de todos os rostos, cores, gostos e idiomas, pois como disse Joaquim Almeida: “ou joga todos ou ninguém joga!”.

O futebol é isso, 11 contra 11 e não importa como sejam, futebol é festa e alegria, um esporte que transpira e nos incorpora. Vivamos!

Fontes: Futebol Interior, Santa Portal

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