O Santa Cruz nasceu e viverá eternamente

(Foto: Divulgação/Santa Cruz)
Por Diego Borges, PE

 

“O Santa Cruz nasceu e viverá eternamente.” Essa frase profética foi proclamada por Alexandre Carvalho há 103 anos, em 3 de fevereiro de 1914, no ato de fundação do que viria a se tornar um dos principais clubes de futebol do Nordeste do Brasil. Desde o seu nascimento, a agremiação agrega ao esporte uma imagem de resistência popular, acumulando inúmeros aspectos sociológicos na eterna luta de classes e de raças. Uma história repleta de intensos altos e baixos. Conquistas e lamentos. Com uma única característica invariável: o apoio incondicional da sua torcida, capaz de inverter a lógica do futebol.

Se ainda hoje podemos notar vestígios nocivos da escravidão, em 1914, passados apenas 25 anos após a abolição, os negros sofriam com atos ainda mais explícitos de discriminação. Entre as sanções, a proibição de praticar o esporte bretão pelos principais clubs elitistas do Recife. Mas os jovens que se reuniam na frente do pátio da igreja da Santa Cruz para jogar bola resolveram dar um passo de contraposição e admitiram entre eles, o negro Teófilo Batista de Carvalho, o Lacraia – responsável pela confecção do escudo do clube e um dos primeiros ídolos deste. Nascia, então, o clube do povo, primeiro no nordeste do país que admitiria os ‘não-brancos’ como jogadores. Um grito de resistência que ecoa pelos corredores da sede até as arquibancadas.

Essa ligação com uma luta de massas cresceu ao longo dos anos, arrastando multidões para ver o Santa Cruz jogar. Chegou até a ofuscar uma visita de Santos Dumont ao Recife em seu inusitado avião 14 Bis. Naquele mesmo dia, em 1919, o Botafogo também estava na cidade como parte do destino de sua excursão pelo Nordeste. Acabou derrotado pelo Santinha por 3 a 2. Primeira vitória de um clube da região sobre os sulistas. Era só o primeiro passo para a construção de uma imagem nacional. Reforçada em 1934, quando o Tricolor se tornou o primeiro clube brasileiro a derrotar a Seleção nacional, em excursão no Recife após a Copa da Itália.

Outro episódio que simboliza a interação do clube com sua torcida é a construção do seu estádio. Sem dinheiro suficiente, a saída estava no apelo ao emocional do torcedor através de campanhas públicas para arrecadar materiais de construção. Foi preciso a intervenção policial para que o clube adotasse uma nova política, sob a alegação de que estoques de outras obras na cidade desapareciam pelas madrugadas. E com tijolos de diferentes modelos, vigas de diferentes tamanhos, cimentos de diferentes marcas, surgiu o que seria a personificação da ‘casa própria’ de todo torcedor coral. O José do Rego Maciel, um dos mais simbólicos templos do futebol nordestino, nasceu com capacidade para quase 40 mil pessoas. Depois ampliado, comportando até o recorde de 96.200 torcedores em 1993, na goleada brasileira por 6 a 0 sobre a Bolívia, que marcou a arrancada da Seleção para o Tetra no Mundial.

O estádio foi palco nos anos 70 do que a imprensa nacional chamaria de Terror do Nordeste. Comandado pelo técnico Paulo Emilio, o esquadrão liderado por Ramón, Givanildo, Carlos Alberto Barbosa, Levir Culpi e Fumanchu surpreenderia o Brasil inteiro em 1975. Após bater vários adversários nas chaves classificatórias, na última rodada da terceira fase do Brasileirão somente a vitória interessava ao Tricolor na briga pela vaga na semifinal. O dever seria ingrato para qualquer time na época: vencer o Flamengo de Zico, no Maracanã. Missão cumprida. Vitória por 3 a 1. O Santa Cruz avançou para as semifinais como líder de seu grupo e teve o direito de enfrentar o Cruzeiro, outro timaço da década, no Arruda. Se avançasse, o Nordeste seria palco de uma grande final do futebol brasileiro pela primeira vez. Mas um gol irregular de Palhinha, aos 45 do segundo tempo acabou com o sonho. Vitória celeste por 3 a 2.

(Foto: Arquivo Pessoal)
Em 2008, torcida do Santa Cruz acompanhou de perto a reforma do gramado (Foto: Arquivo Pessoal)

Seria injusto falar da história do Santa Cruz contando apenas as suas glórias. Até porque foram nos anos de maior sofrimento que a relação com a torcida se mostrou mais fiel. Tempos de jejuns de títulos e longe da elite do futebol foram vividos – e superados – nos anos 80 e 90, mas nenhum deles se iguala ao intervalo de dor e sofrimento que o clube amargou a partir de 2006. Administrações absurdas, campanhas pífias e quedas sucessivas levaram o clube da Série A à D em quatro anos. Foi então que entrou em cena novamente o torcedor. A cada jogo, a presença era maior. Até quando não havia time em campo, os mais fanáticos aplaudiam máquinas na reforma do gramado. Cada vez mais torcedores lotavam o Arruda e impediam que o fim chegasse para o clube.

O ressurgimento começaria em 2011. Com uma receita salarial cinco vezes menor que a do rival Sport, o Tricolor conquistou o Estadual daquele ano, quebrando um jejum de cinco temporadas sem título. E confirmou o ano vitorioso com a saída da Série D. Vieram ainda o Bi e o Tri do Pernambucano em plena Ilha do Retiro, antes do adeus ao inferno das divisões menos privilegiadas do futebol nacional, com o título da Série C. A redenção seria consolidada em 2015, quando após dez anos longe da elite, o Tricolor garantiu a volta à Série A e o título da Copa do Nordeste em 2016, liderados por Grafite, João Paulo, Danny Morais e uma leva de atletas que subiram com o time desde a última divisão, como Tiago Cardoso e o prata da casa Renatinho.

Novamente rebaixado, o Tricolor retorna à Série B em 2017 com uma grande dúvida sobre seu futuro. Com graves problemas financeiros, o clube vive a esperança de absorver a nova queda e evitar repetir o vexame da última década. A única certeza é de que sua torcida estará ao seu lado, seja para comemorar ou para dar a mão na hora de dificuldade. Porque, como profetizou Alexandre Carvalho, o Santa Cruz viverá eternamente.

Fontes: Blog Bola na Área, SporTV, Superesportes PE.

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