O timaço do Cartel de Medellin

A maior geração do futebol colombiano e sua relação com o narcotráfico

Por Wagner Ponce, SP

Muitas equipes marcaram sua história no futebol sul americano. Para os brasileiros, nenhum time supera o Santos de Pelé. Já os argentinos não deixariam de citar o Independiente de Daniel Bertoni, assim como os uruguaios e o Peñarol do matador Fernando Morena. Não importa a geração, dos mais velhos aos mais novos, todos citam algum time inesquecível. Mas, dentre tantos plantéis, nenhum é tão injustiçado quanto o Atlético Nacional, campeão da Libertadores da América de 1989. Uma equipe de futebol envolvente e veloz, montada por um dos maiores treinadores colombianos, Francisco Maturana, só que, infelizmente, para a imprensa, sua biografia tem uma mancha que nunca será apagada.

É óbvio que fica impossível começarmos a falar qualquer coisa sobre o Nacional sem citarmos Pablo Escobar. “El Patrón”, como era conhecido o maior narcotraficante da época, era de fato um cara apaixonado por futebol. Em muitas histórias, seu nome está relacionado aos três times da região de Medellin, pois, além do Atlético Nacional, o Deportivo Independiente e o Envigado FC também seriam “agraciados” com alguma ajuda financeira do poderoso traficante. Dentre esses “regalos”, ele teria investido pesado na formação de equipes, além de suborno e ameaças a juízes e jogadores. Torcedor do Independiente (não do Nacional, como muitos dizem), Pablo teria até ordenado a morte de um juiz que supostamente prejudicou seu time em favor do América de Cali, clube que era “patrocinado” pelo cartel rival. Para se ter uma ideia, o torneio daquele ano foi cancelado devido a esse episódio. Definitivamente o famoso “plata o plomo”, estava implantado no campeonato colombiano, fazendo com que, pela primeira vez em sua história, nenhum clube fosse consagrado campeão.

Mas não era apenas Escobar que “investia” no esporte. Um dos seus maiores sócios no Cartel de Medellin, Gonzalo Rodríguez Gacha, também era apaixonado pelo futebol (dizem que este era o segundo assunto mais falado nas reuniões do grupo). “El Mexicano”, pseudônimo do poderoso parceiro, também direcionava pomposas cifras para seu clube do coração, o Millonarios de Bogotá. Entre 1981 e 1990, o time do Nacional de Medellin só havia conquistado um campeonato (1981), contra cinco títulos seguidos do rival de Cali (de 82 a 86) e um bicampeonato (87 e 88) do time da capital.
O investimento no futebol ia também muito além da paixão, com clubes servindo de fachada para sucessivas operações de lavagem de dinheiro, através das receitas de bilheterias, declarações falsas de transferências, e até contratos fictícios. Esse cenário foi positivo para que os times pudessem manter no país suas principais estrelas, além de contratarem jogadores de outros países sul-americanos. O “craque” Neto, por exemplo, foi um dos jogadores que atuaram pelo Millionarios, assim como o argentino Ricardo Gareca, ídolo do América de Cali na década de 80, time com uma das maiores folhas de pagamento do continente na época. “A injeção de dinheiro ilícito serviu para pagar bem aos jogadores locais e trazer bons estrangeiros. Com isso, todo o futebol nacional se beneficiava” – assume o respeitadíssimo Francisco Maturana, técnico que comandou o Atlético Nacional entre 1987 e 1990, e a seleção da Colômbia nos Mundiais de 1990 e 94.

Seleção colombiana na Copa da 90 (Foto: reprodução)

Dentre tantas histórias, era muito comum a organização de “peladas” na Hacienda Nápoles, propriedade oficial de Escobar. Essas partidas amigáveis contavam com a presença de muitos jogadores colombianos famosos, que haviam disputado a Copa do Mundo. Eles eram levados para lá em aviões particulares, além de receberem boas quantias em dinheiro e outros benefícios, como cocaína e prostitutas. Só uma história com muita coisa em comum ao nosso futebol, algo que, com toda certeza, acontece até hoje.

Por outro lado, em seu livro (“Pablo Escobar, Meu Pai”), Juan Pablo, filho do narcotraficante, diz que a maioria dos casos contados não passam de lendas, e ele ratifica, dizendo que falar de um morto a menos não melhoraria a reputação de seu pai. Ele conta ainda que muitas histórias serviam apenas para que alguns clubes justificassem suas derrotas, independente das penalidades mal batidas, gols perdidos ou qualquer outra coisa que fosse impossível ser creditada ao seu genitor – o Olimpia do Paraguai até hoje chora pela derrota na Libertadores de 89, em um jogo onde aparentemente não se percebe qualquer intervenção da arbitragem.
Segundo ele, Pablo era apenas um fanático, assistia e ouvia todas as partidas que pudesse, não importando o lugar. Escobar era mesmo apaixonado por futebol. Em uma de suas muitas fugas, algo cômico aconteceu. Ele carregava consigo um radinho de pilha colado ao ouvido, e, mesmo em um momento tenso junto ao seu principal “sicário”, ele conseguia manter a calma para ouvir uma partida:
-Pope, pope…
-Diga, Patrón.
-Gol de Colombia!!!

Esse “causo” foi contado pelo próprio Popeye, um dos principais guarda-costas do Senhor do Tráfico, no documentário “Los Dos Escobar” (Os Dois Escobar), onde a história do chefe do Cartel de Medellin se cruza com a do zagueiro Andrés Escobar, morto em 1994.

Documentário “Los Dos Escobar” (Imagem: divulgação)

Eles não tinham nenhum parentesco, mas se conheciam, obviamente. Pablo Escobar morreu no dia 2 de dezembro de 93, durante uma perseguição policial, nas proximidades do Estádio Atanasio Girardot. Andrés foi morto no dia 2 de julho de 94, no estacionamento de um bar em Medellin, lugar onde ele havia ido para conversar com alguns amigos e tentar esquecer um pouco o gol contra que havia feito na Copa do Mundo, poucos dias antes. Esse mesmo lance foi o motivo da discussão com um dos guarda-costas dos irmãos Pedro e Santiago Henao: ambos supostamente teriam perdido dinheiro em uma aposta com a eliminação colombiana na Copa do Mundo.

O funeral do zagueiro marcou o fim de uma das épocas mais trágicas e vencedoras do futebol da Colômbia. Milhares de pessoas foram ao enterro do “Cavaleiro do Futebol”, um dos maiores ídolos da história do Atlético Nacional. A conexão das histórias entre o vilão e o atleta se destaca como um dos últimos capítulos daquela que foi uma das maiores gerações do futebol colombiano.

Muito antes disso, no começo da década de 80, o narcotráfico começou a se aproximar do povo menos favorecido, já que o poder público não chegava até a população mais carente, algo muito comum aqui pelo Brasil também. Pablo Escobar começou a financiar diversos projetos para os mais pobres. Construiu campos, bancava times, e até casas populares chegou a erguer – ele era uma espécie de Robin Hood latino. Desses campinhos de várzea, os talentos começaram a brotar. Muitos meninos que teriam o tráfico como seu único caminho, passaram a se dedicar ao futebol. Um projeto até meio contraditório, já que eles poderiam ser possíveis soldados do Cartel. Mas, vamos pensar por outro lado: com o apoio da população, o traficante ganhava a proteção necessária para encobrir suas atividades ilícitas, e ainda almejar seu projeto mais audacioso, ser político.

Pablo Escobar inaugurando mais um campo de futebol em Medellin (Foto: Reprodução)

Em paralelo, o Club Atlético Nacional resolve resgatar suas raízes e contratar apenas jogadores colombianos para reforçar seu elenco, dispensando assim os estrangeiros que faziam parte do plantel, uma política parecida com a que o Athletic Bilbao já fazia na Espanha. Por toda a sua história, o clube sempre privilegiou essa ideologia nacionalista, mas teve que abrir mão durante um período, pois seus principais adversários se reforçavam cada vez mais com jogadores estrangeiros. Com o crescimento do futebol nas áreas mais humildes, os clubes começaram a receber e descobrir uma grande quantidade de jogadores talentosos. Foi nesse exato momento, mais precisamente em 1987, que o Nacional traz o técnico Francisco Maturana, e começa a nova era dos “Puros Criollos” (jogadores colombianos que atuavam pelo Nacional).

O clube alviverde já contava com uma base muito consistente. Tinha no gol o excêntrico René Higuita, o habilidoso Andrés Escobar na zaga, o cerebral meia Alexis Garcia e o centroavante trombador, mas artilheiro, John Jairo Tréllez. Além do treinador, também contaram com os reforços do zagueiro Luiz Carlos Perea, e os meias Gildardo Gómez e Leonel Álvarez. Assim nascia um elenco muito forte e capaz de quebrar a hegemonia dos seus adversários. Como todo bom trabalho, o resultado não chegou logo de cara. Na temporada de 87, o clube terminou na terceira colocação, e em 88 ficou com o vice campeonato, atrás do Millionarios, que conquistava o bicampeonato. Como consolação, o segundo lugar garantia uma vaga na Copa Libertadores do ano seguinte.

Após duas temporadas, o trabalho ainda não apresentava um resultado consistente, mas o time mostrava um futebol extremamente vistoso e empolgante, o que garantia muita tranquilidade para a sequência de Maturana no cargo. Com um grupo cada vez mais entrosado e priorizando totalmente a competição sul-americana, era chegada a hora dos colombianos mostrarem todo o seu talento para o continente que nunca tinha visto uma conquista do país.
Definidos os grupos para a competição, o Atlético Nacional lutaria por uma das três vagas na fase seguinte com o rival Millionarios, e os equatorianos Deportivo Quito e Emelec. O começo não foi dos melhores, com três empates em 1×1 nos três primeiros jogos fora de casa. O quarto jogo seria um clássico em Medellin contra o Millionarios. Com um Atanasio Girardot completamente lotado, o resultado foi aquém do esperado: derrota por 2×0 para “Los Embajadores”. A situação no grupo estava muito complicada, e o time precisava de duas vitórias contra os times do Equador nos dois jogos restantes. Com duas boas atuações, os Puros Criollos venceram as duas partidas em sequência, garantindo assim a vaga nas Oitavas de Final.

Todos sabemos o quanto é difícil conquistar uma Libertadores da América, mas quando se entra na fase de “mata-mata” é que temos a verdadeira noção do que é a competição. Logo de cara, para testar a evolução e maturidade da equipe, o Nacional teria um confronto muito complicado contra o Racing Club da Argentina. A primeira partida foi disputada em casa, diante da sua torcida. “A Máquina Verde” não decepciou, 2×0 frente aos argentinos. Na partida de volta, em Avellaneda, derrota por 2×1, mas vaga garantida pela soma dos resultados. Enquanto isso, o Millionarios também garantia a sua classificação para a fase seguinte, depois de derrotar o Bolívar no placar agregado. Como o regulamento da Copa não permitia que duas equipes do mesmo país avançassem para as semifinais, o duelo entre os dois rivais era certo para as Quartas de Final.

Por ter feito uma campanha inferior, o primeiro jogo estava marcado para Medellin. O Nacional dessa vez não cometeu os mesmos erros da primeira fase e confirmou sua força em casa, vencendo por 1×0 em um jogo muito nervoso e travado. Mesmo com a derrota, a situação era muito mais tranquila para a equipe de Bogotá, que teria grandes chances de reverter o resultado no jogo da volta. Em mais uma partida tensa, como pede um clássico, o Millionarios saiu na frente no El Campín, e dominava a maioria das ações de ataque. Quando todos esperavam que o time da casa ampliasse o placar, Tréllez fez o gol do empate e da classificação para o “Los Verdolagas”. Finalmente a equipe de Francisco Maturana mostrava o equilíbrio que era necessário para conquistar a América.

Millionarios x Atlético Nacional, o jogo da volta pela vaga na semi-final (foto: Reprodução)

As semifinais estavam marcadas para os dias 10 e 17 de maio, e o adversário seria o Danúbio, do Uruguai, time que já havia eliminado o compatriota e tradicionalíssimo Nacional, além dos chilenos do Cobreloa. A primeira partida foi disputada fora de casa, no famoso Estádio Centenário de Montevidéu. Com um empate em 0x0, o time colombiano voltava para a Colômbia com a necessidade de uma vitória simples. Mas foi nesse jogo que aquele futebol leve e de muita velocidade deu um verdadeiro show, vencendo por um incontestável 6×0, com quatro gols de Albeiro Usuriaga. Estava assim carimbado o passaporte para a tão sonhada final. Um detalhe importante sobre essa partida: anos depois, um dos auxiliares do jogo, o argentino Juan Bava, confessou à imprensa que Pablo Escobar tentou utilizar do seu famoso método “plata o plomo” para comprar o trio de arbitragem. Segundo o próprio Bava, para a sorte deles, o time do Nacional estava inspirado naquela noite, senão ele mesmo teria feito um gol…
O Atlético Nacional tinha uma tarefa difícil pela frente: quebrar a sequência de insucessos colombianos em finais de Libertadores, já que, por três anos seguidos, o América de Cali havia perdido a decisão da competição. A primeira partida contra o Olimpia seria disputada no Estádio Defensores del Chaco, no Paraguai. Mas havia um problema para o jogo de volta. O principal estádio de Medellin, Atanasio Girardot, não cumpria as especificações da Conmebol para sediar a decisão do torneio, pois sua capacidade máxima era inferior aos 50 mil determinados pela federação. Tal fato obrigou que a partida fosse disputada em Bogotá, no Estádio Nemésio Camacho, o El Campín. No Paraguai, a equipe alviverde sofreu com a forte marcação do time da casa e foi derrotada por 2×0. Naquele momento, a distância da sua torcida no jogo da volta, somada à desvantagem imposta pelo adversário, trazia uma situação extremamente adversa para o Nacional. Seria necessária uma superação ímpar, algo que esse time ainda não tinha demonstrado em sua história.
No dia 31 de maio de 1989, mais de 50 mil colombianos presenciaram um jogo épico! Cabe destacar que quase 30 mil torcedores se deslocaram de Medellin até a capital do país, numa verdadeira invasão verde que transformou o El Campin em um caldeirão, para uma decisão digna do maior torneio de clubes do MUNDO! Com a vitória por 2×0 no tempo normal, o Atlético Nacional levou a partida para a decisão de pênaltis, e, mais uma vez, brilhou a estrela do goleiro Higuita, que defendeu quatro cobranças. Alías, foi uma decisão onde os goleiros se destacaram, terminando em 5×4 para o Nacional, após dezoito pênaltis cobrados. Era a consagração que Francisco Maturana e seus jogadores tanto precisavam. A Libertadores da América era finalmente conquistada por um time da Colômbia.

Confira os gols e a eletrizante decisão de pênaltis na decisão da Libertadores de 89:

Em dezembro de 1989, era a vez da busca pelo inédito Mundial de Clubes.

Em Tóquio, o Nacional teria pela frente o fantástico Milan, do famoso trio holandês Rijkaard, Gullit e Van Basten. Após uma partida sem gols, o jogo se encaminhava para a prorrogação, mas, no último minuto, em cobrança de falta, o time italiano marcou com Evani e acabou com o sonho do Atlético Nacional.

A temporada seguinte era muito esperada pelo povo colombiano. Francisco Maturana havia assumido a seleção após a conquista da Libertadores, e conseguiu classificar a Colômbia para uma Copa do Mundo após 28 anos. Mas, entre todos os torcedores colombianos existiam alguns que estavam ainda mais orgulhosos, no caso, a torcida do Nacional, por seus oito jogadores convocados para a Copa do Mundo. Infelizmente a participação no mundial não acabou como todos esperavam. Os cafeeiros avançaram até as Oitavas de Final, mas foram eliminados pela seleção de Camarões, sensação daquela Copa. O jogo terminou com a vitória de 2×1 para os africanos, com um gol na prorrogação de Roger Milla, após um vacilo do goleiro René Higuita ao tentar driblar o veterano atacante.

Roger Milla rouba a bola de Higuita e faz o gol da vitória camaronesa (Foto: Reprodução)

Três anos depois, durante as eliminatórias para a Copa de 94 nos EUA, essa geração conseguiu uma das suas maiores conquistas com a camisa de sua seleção. Uma suntuosa goleada por 5×0 em pleno Estádio Monumental de Nuñez frente à Argentina, classificando a equipe para o mundial e obrigando os Hermanos a disputarem a repescagem. Isso deixou a torcida colombiana com uma confiança nunca antes vista para uma Copa do Mundo. A equipe chegou à Califórnia, sua sede e local de concentração, como uma das grandes favoritas à conquista do mundial, ao lado de seleções como Brasil, Argentina, Itália e Alemanha. Como favoritismo não ganha jogo, e muito menos se conquista uma Copa do Mundo na véspera, o time colombiano foi eliminado ainda na primeira fase. Ficou em última colocação na sua chave, após perder para a forte Romênia e para a inexpressiva seleção dos EUA, em um jogo marcado pelo fatídico gol contra do zagueiro Escobar, sobre o qual vocês infelizmente conheceram o desfecho. A vitória contra os suíços na última rodada não era mais suficiente para salvar o time tricolor, fazendo com que todas as esperanças de uma torcida se resumissem em decepção.

Após esse período de glórias e bons resultados, o futebol da Colômbia começou a entrar em declínio. Mesmo assim, ainda conseguiu ótimos desempenhos em 95 e 96, ao chegar às finais da Libertadores, com o Atlético Nacional e América de Cali, respectivamente, mas o brilho dos clubes e de suas seleções não era mais o mesmo. A formação de novos jogadores começou a diminuir e os principais ídolos não atuavam mais no país. Aos poucos o dinheiro investido pelo narcotráfico ia diminuindo, e os clubes não conseguiam mais encontrar nas “canchas” os mesmos jovens que antes tinham aos montes.

Nunca iremos saber a real influência dos narcotraficantes para o desenvolvimento dessa geração do futebol colombiano e, infelizmente, a mancha da violência acabou sendo maior do que a alegria do povo com esse esporte tão fantástico.

Fontes: GloboEsporte.com; El Deportivo; El Tiempo

 

 

 

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