Onde há Chape, há vida: ela permanece na Primeira

Foto: Liamara Polli/Agência O Dia
Por: Léo Leal, RJ

Quando houve o acidente, todos clamaram pela imunidade da Chapecoense por dois ou três Brasileiros. Achávamos que não havia como um clube todo destruído competir de igual pra igual com os outros. De forma até surpreendente devido a seu histórico, a CBF acatou de imediato. Mas a Chape recusou.

A admirável atitude de rechaçar o posto de café-com-leite, mesmo tendo todo o direito, foi digna de respeito, mas também causou preocupação. Teria o clube condições de se reerguer após um possível rebaixamento e, consequentemente, redução de cotas televisivas e patrocínios?

De 2017 pra cá, há mais do que as partes estruturais e esportivas a administrar. Eles carregam nas costas uma chuva de processos trabalhistas, movido pelas famílias das vítimas. Não discutiremos se há um lado certo nessa briga, é papo pra outro debate. Fato é que havia uma enorme chance de se afundarem em dívidas.

O trabalho de remontagem do elenco era complexo. Os clubes grandes prometeram ajudar no que fosse preciso, mas os jogadores oferecidos por empréstimo eram geralmente aqueles terceiros reservas sem muita utilidade a um elenco competitivo. Um conjunto de atletas desse naipe seria caos anunciado. Então, a diretoria tomou a acertada medida de buscar destaques em equipes de médio porte, viáveis financeiramente e com retorno técnico satisfatório, além de jogadores que tinham identificação com o clube, como Apodi e Túlio de Melo. De emprestados dos grandes, trouxe quem já rodava por empréstimos anteriormente, caso de Reinaldo, lateral que acabou brilhando com a camisa do Verdão do Oeste na temporada passada, o que fez seu time, o São Paulo,  ao reaproveitar partir de 2018.

Assim, além de se tornar uma ótima vitrine, a Chape fez uma campanha surpreendente, que a levou para a Libertadores pelo segundo ano consecutivo. Além do bicampeonato estadual e uma campanha de respeito na Liberta – eliminada por incompetência do jurídico e má vontade da CONMEBOL – no primeiro semestre, nomes como Rossi, Arthur Caique, Luiz Antônio e Wellington Paulista ajudaram a levar a equipe ao inimaginável no Brasileirão.

Então veio 2018, e junto com ele, as dificuldades que eram esperadas já no ano anterior. A perda do título catarinense para o Figueira, quando era favorita, foi um baque. Na Libertadores, queda na primeira Pré, para o Nacional do Uruguai. Algumas contratações e medidas do departamento de futebol passaram por questionamentos. O comando do futebol não tinha mais o controle da situação como antes.

Além de tudo, o simbolismo de tudo que a instituição sofreu acarreta ações que, embora louváveis, podem atrapalhar o planejamento técnico na temporada, como a viagem para um amistoso com o Torino, na Itália, em meio aos campeonatos nacionais, um dia antes do confronto contra o Corinthians pela Copa do Brasil.

Aos poucos, a queda pra Série B vinha se tornando realidade. A Arena Condá não era mais o abatedouro de outrora, tabus a seu favor eram quebrados – duas derrotas perante ao Flu, para o qual nunca havia perdido – e a equipe não conseguia viver só da magia e da boa vontade dos deuses.

A Chapecoense rebaixada em 2018 poderia acabar. Isso não é exagero, é o que se ouvia de ligados ao clube. Não seria de uma vez, e sim aos poucos, doloroso, despencando pelas divisões até se olhar no espelho e enxergar um São Caetano, que também foi desabando após uma tragédia.

E quando estava cada vez mais iminente, surgem anjos de carne e osso, tomados pelo espírito vencedor de quem já se foi, a trilharem outro caminho. Surge Kempes em Wellington Paulista, Danilo em Jandrei e, principalmente, Rangel em Leandro.

O Santos no Pacaembu era jogo perdido; o Inter, vice-líder, uma missão quase impossível. Mas quanto mais longe, maior o arco da trajetória de uma certa flecha.

Assim como a classificação para a Libertadores no ano passado, a fuga do rebaixamento seria um titulo histórico.

Salve, novamente, a campeã. Ouvida em Chapecó, BH, Medellín, em todos os outros continentes. Sempre recordaremos.

Sem qualquer imunidade, canetada ou café-com-leite, ela escapa de novo. Em 2019, novamente entre os grandes, sendo a protagonista entre os coadjuvantes.

Ano após ano, há Chape sobrevivendo. A cada momento de dor, a certeza de que força é seu dom. Em cada passo dado, há eternidade a lhe buscar.

A aldeia de Condá é a Série A.

“Como é rica a sua história, Chapecoense…”

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*