Portuguesa de Acarigua: o Cosmos sul-americano dos anos 70

A recém-nascida equipe venezuelana dominou o país e surpreendeu na Libertadores

Fundado em 1972, o clube de Acarigua levou oito títulos nacionais em cinco anos (Foto: Arquivo Grada Digital)
Por Dudu Nobre, PR

A Venezuela sempre esteve na periferia da América do Sul quando o assunto é futebol. Única Seleção a não se classificar a uma Copa do Mundo dentre as que disputam as eliminatórias, o país vino tinto tem poucas recordações sobre feitos relevantes a nível continental. Uma delas aconteceu na década de 1970 em Acarigua, cidade localizada a cerca de 350 km da capital Caracas.

Em 9 de janeiro de 1972 nascia a Portuguesa Fútbol Club, uma iniciativa de 26 milionários que viviam na região para popularizar o futebol – o beisebol sempre foi o esporte número 1 da Venezuela. Os tempos eram outros, o país vivia dos lucros do petróleo – embora nenhum dos fundadores trabalhasse diretamente com o combustível – e a exploração ainda não havia sido estatizada, o que só viria a acontecer em 1976.

A ascensão foi imediata, tanto que no ano seguinte o clube rubro-negro já conquistou o título nacional. Durante a década a cena se repetiu por outras quatro vezes (de forma consecutiva entre 1975 e 1978), além de vencer a Copa Venezuelana em três oportunidades (1973, 1976 e 1977).

A sequência fez com que a equipe fosse frequentadora assídua da Libertadores, e a diretoria não queria fazer feio. Para isso, investiu pesado em atletas dos países vizinhos, trazendo três uruguaios, quatro argentinos, um peruano e um paraguaio. No entanto, faltava um jogador de renome internacional. Até que em fevereiro de 1977 a Portuguesa anunciou Jairzinho, o Furacão 70.

Jairzinho com os companheiros de Venezuela (Foto: Arquivo Grada Digital)

A contratação foi de grande impacto. Mesmo com 32 anos, o atacante havia feito 31 gols na temporada anterior e foi peça chave no time cruzeirense que conquistou a Libertadores de 1976. Na época a revista Placar especulava que a Raposa não renovou o contrato com Jair porque ele havia pedido 80 mil cruzeiros (cerca de 100 mil reais) por mês, o que indicava que o clube venezuelano pagaria um valor igual ou maior a esse.

Sob o comando do treinador iugoslavo Vladimir Popovic (que mais tarde seria campeão do mundo com o Estrela Vermelha-SER, em 1991) e tendo no Furacão 70 sua referência técnica, a equipe rubro-negra liderou o grupo 5 com 10 pontos, despachando Estudiantes de Mérida-VEN, Unión Huaral-PER e Sport Boys-PER.

Pela primeira vez na história um clube venezuelano chegava à fase semifinal da competição – na época um grupo com três equipes. A dificuldade era grande, já que enfrentaria o atual campeão do certame e o Internacional, bicampeão brasileiro. O time não chegou a decisão, mas fez jogos equilibrados no Brasil e protagonizou uma partida histórica no dia 10 de julho daquele ano.

O colorado foi a Acarigua com nomes como o goleiro Manga, o volante Batista e o atacante Valdomiro. Pois a Portuguesa aplicou 3 a 0 no Inter, gols de Moss, Nito de Lima e Nuñez. O resultado foi tão impactante que dois dias depois o clube gaúcho demitiu o treinador Carlos Castilho.

Apenas duas equipes venezuelanas chegaram a fase semifinal da Libertadores (Foto: Site oficial Portuguesa)

Naquele ano ainda houve um empate com o galáctico Cosmos-EUA de Pelé, Beckembauer e companhia, em amistoso realizado na capital Caracas. Mas a “era de ouro” passou, tanto que dos anos 80 em diante o clube nunca mais conquistou um título da elite nacional, revezando entre a primeira e a segunda divisão da Venezuela.

Mas a história foi escrita, tanto que o único a repetir o feito foi o Universidad de Los Andes-VEN, em 1984 – o clube de Mérida não pontuou nessa fase, enquanto que o rubro-negro fez dois pontos (uma vitória). A Portuguesa dos anos 1970 marcou época no futebol venezuelano.

Fontes: Anotando Fútbol, Correio Braziliense, Gazeta do PovoGrada Digital, Meridiano, Placar, Site oficial Portuguesa FC e Venezuela Fútbol.

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