O retorno do Internacional à elite do futebol brasileiro

A VOLTA DE UM GIGANTE

Carlos faz o gol e se emociona. (Foto: Ricardo Duarte)

Ricardo Santos – RS

Existe um dito popular que pontua: “não importa o tamanho da queda, mas sim o saber se levantar”. E o Sport Club Internacional sofreu um duro golpe nos anos de 2016 e 2017. A queda foi literal em 2016, a primeira da história do Inter, e continuou ocorrendo figurativamente em outros aspectos durante este ano. O Inter voltou. Passou por muita coisa. Levantou-se após grande agonia. Longe de ter alcançado o objetivo com facilidade – evidenciado pela falta do título –, o que é necessário aos colorados é aprender com os erros.

Alguns torcedores e profissionais de imprensa creditavam à série B um local de retomada tranquila ao Inter; onde não só venceria, mas seria arrasador. E a primeira partida vinha querendo sublinhar essa tese, quando a equipe do Londrina foi batida por 3×0, no Paraná. No entanto, não demorou muito para os problemas do Internacional voltarem a aparecer. O futebol apresentado em campo era tão ruim, ou pior que o apresentado no ano anterior. Antônio Carlos Zago, treinador do primeiro semestre, não encontrou esquema, nem táticas viáveis. Essa continuação da queda, no sentido técnico, na organização e no fator anímico dos jogadores decorreu-se durante o primeiro turno.

E os colorados passaram a temer o pior. Iria o Internacional, campeão de duas Libertadores e um mundial na década passada, ficar fora do G-4 da série B?

A torcida começava a mostrar o descontentamento. Sempre presente, até nos momentos mais angustiosos, o público fazia sua parte e compuseram uma média de público entre as maiores de todo o Brasil. Portanto, era necessária a mudança. A direção optou por retirar Zago de seu posto e apostar todas as fichas (cerca de um milhão de fichas) no pagamento da multa do então treinador do Bahia, Guto Ferreira, da alcunha folclórica “Gordiola”.

Guto Ferreira chega às pressas para ajudar o colorado (Foto: Ricardo Duarte/Internacional)
Guto Ferreira chega às pressas para ajudar o Internacional (Foto: Ricardo Duarte/SC Internacional)

Guto Ferreira chegou para tentar recolocar o Inter na série A, acompanhado dos reforços de Camilo e Leandro Damião. Demorou para o treinador conseguir encaixar a equipe, e sua fala mansa durante as coletivas não ajudavam a conter os ânimos dos torcedores, cada vez mais insatisfeitos. A partir daí, todo pós-jogo no Beira-Rio havia tensão. Em algumas partidas de insucesso, o protesto foi mais contundente e com quebra-quebra. A direção de futebol seguia pedindo calma e tempo. O torcedor estava no limite. Métodos pouco usuais tomavam o estádio, como a aparição de sal grosso na beira do gramado.

Aos supersticiosos, pode-se creditar uma reviravolta graças ao “banho de sal” que o Inter recebeu. Quem pretende analisar por outras vias, é possível vermos que Guto Ferreira encontrou uma escalação, um time titular. O futebol seguia não sendo vistoso, de encher os olhos, mas nessa altura do campeonato só importava subir na tabela, do jeito que fosse, com ou sem sal grosso. E o Inter encontrou um caminho, finalmente, na série B. Nove vitórias seguidas. Protestos foram cessados. Leandro Damião trouxe consigo uma vontade que contagiou o grupo de jogadores. Um jogador que mostra que a segunda divisão é realmente suor e sangue.

Sal grosso no gramado do Beira-Rio (Imagem: Jogo Aberto/TV Band)
Sal grosso no gramado do Beira-Rio (Imagem: Jogo Aberto/TV Band)

O Inter era líder sem desempenho, mas com resultados.

Falando nele, talvez Damião tenha sido o jogador mais importante aos colorados na série B. O próprio ídolo e capitão D’Alessandro destacou: “A mudança mais importante que vejo no grupo foi a chegada do Damião. Nós precisávamos de um cara de área, forte e que a defesa adversária se preocupe. O Damião é esse cara. O acréscimo mais importante foi ele. A partir daí conseguimos melhorar nossas jogadas pela direita, pela esquerda. Ele dá a alternativa da bola por cima, que não é a nossa prioridade. Tentamos sempre jogar com bola dominada, mas ele dá uma opção que na Série B se precisa mais que na Série A”.

Damião mudou os ânimos no Internacional. (Foto: Ricardo Duarte/Internacional)
Damião mudou os ânimos no Internacional. (Foto: Ricardo Duarte/Internacional)

Porém, diferente do que afirma D’Alessandro, a bola aérea era sim a principal jogada que buscou o Inter durante todo o ano. A escalação era o único acerto do técnico Guto Ferreira, mas a parte tática seguia pobre, sem proposição de jogadas. Os adversários, antes reativos contra o Inter, agora já se viam aptos a um jogo de igual, a atacar o Inter e tentar arrancar pontos.

A instabilidade aos poucos retornava ao Internacional.

Nas rodadas finais da série B, o Inter já fazia seus cálculos de quantos pontos restavam para se comemorar o acesso. O alívio, o “levantar” de quem sofreu duro golpe por longo tempo, estava ali tão próximo. Porém, a falta de desempenho adiou ainda mais esse suspiro aliviado. Guto Ferreira foi demitido. Odair Hellman, auxiliar técnico foi posto como treinador interino. Somente em São Paulo, longe do torcedor, em um empate tenso contra o Oeste, por 0x0, os colorados finalmente tiraram um peso de infinitas arrobas de suas costas. O Inter retornava à elite.

O título não veio. Ficou com o competente América-MG. Merecido. O CRB-AL, por exemplo, que foi batido pelo coelho mineiro na última rodada, não foi vencido pelo Internacional em ambas partidas, dentro e fora de casa. O Inter não fez 3 pontos em vários times.

Agora resta planejar o futuro. E se começamos com um dito popular, podemos pensar o recomeço do colorado com outro: “Às vezes, é preciso dar um passo para trás, para darmos dois à frente”. É necessário revisitar todos os erros que as direções do Internacional cometeram ao decorrer destes dois péssimos anos. A troca incessante de treinadores. A compra de jogadores caros não utilizáveis. Alguns discursos e visões de futebol errôneos. Importante é se levantar fortalecido e vacinado. Que os tempos áureos do Inter, que foram logo ali, pouco tempo atrás, possam retornar para a alegria de um torcedor ferido e fiel.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*