Um dia no meio da torcida organizada de um clube da MLS

CL passou um dia na MLS para descobrir mais sobre a torcida e o esporte

Divulgação / Vancouver Southsiders
Por Gabriel Rigoni, RS

É um domingo ensolarado. Quase 30 mil pessoas comparecem ao estádio. Semifinal de campeonato. Atrás do gol, os torcedores mais fanáticos como sempre marcam presença. Entre eles, um megafone, um bumbo e mantas, muitas mantas. Bem-vindo. Estamos no meio de uma torcida organizada de um clube de futebol norte-americano. Conheça os fãs do Vancouver Whitecaps:

O Whitecaps é uma equipe de futebol canadense fundada em 2009. Em 2011, ingressou na Major League Soccer (MLS). Aproveita-se da infraestrutura de dar inveja a qualquer estádio que já recebeu partida de Copa do Mundo para mandar seus jogos, o BC Place. É um time incômodo. Ainda não foi além das semifinais da Conferência Oeste, mas dá a impressão de evoluir a cada temporada. E quem percebe isso é a paciente torcida, que aos poucos cria uma relação sólida e sincera com o clube.

Isso leva tempo, não há dúvidas. Em números, isso não seria perfeitamente ilustrado, já que o estádio costuma receber, em média, mais de 20 mil torcedores por jogo. O que está escondido por trás disso é que o BC Place jamais tem seus dois anéis de cadeiras abertos em partidas do Whitecaps. Apenas o inferior é disponibilizado, enquanto um grande toldo é instalado para esconder o andar superior vazio.

BC Place recebendo as semifinais da Conferência Oeste da MLS (Divulgação / Whitecaps)
BC Place recebendo as semifinais da Conferência Oeste da MLS (Divulgação / Whitecaps)

Mesmo assim, é surpreendente saber que torcedores de futebol estão sendo “fidelizados” na cidade. E entre eles, estão os que levam isso um pouco mais a sério. Atrás do gol, torcidas organizadas buscam referências europeias e sul-americanas para criar o jeito canadense de torcer.

“Eu fiz minha primeira viagem à Europa em 2003, e eu já gostava de futebol. Lá, eu assisti à final da Copa da Alemanha, e eu decidi que eu queria trazer a mesma coisa para casa. Eu pensava: ‘Isso é maravilhoso’. Eu amava o esporte, amava umonte de coisas que eu já via pela televisão, mas quando você vive a experiência, é diferente. As pessoas, a comunidade, os efeitos visuais, a fumaça, as bandeiras. Depois disso, eu pensei que ou eu poderia ter a esperança que isso acontecesse também no Canadá, ou eu podia ativamente ajudar a isso acontecer”, fala Zach Meisenheimer, um dos principais responsáveis pela torcida do time.

A EXPERIÊNCIA DE UM ‘MATCH-DAY’

Um “match-day” vai muito além da bola rolando por 90 minutos mais acréscimos em campo. É tudo além disso. É a experiência, o ambiente criado por uma comunidade. E neste ponto, a torcida aqui relatada surpreende.

Já pela manhã, diversos bares da rua Robson, onde fica localizado o BC Place, são ocupados por torcedores do Caps. Almoçam entre familiares e amigos, estendem a preparação acompanhando futebol americano pela TV, e começam a movimentação rumo ao estádio quando falta um pouco mais de uma hora para o começo do embate. É a partir de agora que tem início o momento mais marcante do dia.

De bar em bar, os torcedores se aglomeram. O grupo do bar mais distante caminha em direção ao próximo. De lá, os torcedores seguem até o terceiro local, e assim por diante. É criada, assim, a “marcha”.

Divulgação / Vancouver Southsiders
Divulgação / Vancouver Southsiders

Milhares, milhares e milhares de torcedores ocupam a rua. Homens, mulheres e crianças caminham pacificamente até o estádio. Entre famílias, músicas, mantas e flâmulas erguidas, bandeiras do movimento LGBT.

O estádio começa a lotar. A marcha chega ao campo, e a torcida começa a tomar as cadeiras do moderno BC Place. Atrás de um dos gols, a Curva Collective, torcida em que imergimos, é identificada através de camisas confeccionadas pelos torcedores.

Entre o grupo, diversas nacionalidades. Canadenses, europeus e sul-americanos. Vancouver é cosmopólita. De pé sobre as cadeiras, o italiano Massimo Cusano liga o megafone que ajudará a conduzir o grupo durante a partida inteira. É o maestro da noite. O que for gritado por ele, será repetido pela massa.

Me encontro apoiando o Whitecaps nesta foto Reprodução / Internet
Me encontro apoiando o Whitecaps nesta foto Reprodução / Internet

“Eu costumo falar que futebol é a mais importante das coisas não importantes da vida. O que eu quero dizer é que no fim do dia eu não vou viver ou morrer por causa do resultado, mas de todas as coisas imateriais, isto é o que eu considero a mais importante. Pessoalmente, significa muito para mim. Eu não sei porque. Eu amo minha cidade, meu clube, e eu realmente quero que a gente tenha sucesso. Eu divido minha paixão com essas pessoas que formam o grupo. Então é realmente legal, nós podemos celebrar vitórias, jogos importantes e acho que estamos no caminho certo na maneira pela qual as coisas estão sendo feitas neste momento”, afirma Massimo.

O ritmo das músicas é marcado por um bumbo e a soma das palmas dos torcedores. E entre os cânticos, podemos ouvir as maiores pérolas da partida.

Tudo começa normalmente com cantos famosos pelos estádios do mundo. Alguns conhecidos pelos brasileiros, como “We are together supporting you tonight”, entoado pela torcida gremista como “E esta noite te quero ver ganhar”. É possível ouvir também uma criativa paródia de Sweet Dreams.

Tudo começa a ficar estranho a partir de um canto que à primeira impressão não apresenta nada diferente. “Scarves up if you love the Caps” (mantas para cima se você ama o Caps) é repetido dezenas de vezes. A coreografia começa a tomar corpo na seguinte frase: “sit down if you love the Caps” (sente se você ama o Caps). Após algumas repetições, tire a camisa se você ama o Caps é a nova ordem. E ela só para quando substituída por “tire os seus tênis se você ama o Caps”. Sapatos erguidos aos céus para demonstrar o apoio ao clube.

Palavrões? Sim, eles são ouvidos em uma música apenas. Mas a ausência de rivalidade com qualquer clube faz que o momento soe o mais falso do dia.

Após 90 minutos de um entediante empate em 0 x 0 , a torcida não havia parado de cantar em nenhum momento. Os atletas deixam o campo, e Zach, líder do grupo, guarda os materiais em uma sala do estádio utilizada como depósito pelos torcedores.

Foto: Gabriel Rigoni
Foto: Gabriel Rigoni

Foi o último jogo da temporada. A eliminação veio fora de casa na partida seguinte. O depósito só será aberto novamente em 2018, com um time um pouco mais forte. De ano em ano, de degrau a degrau, a cultura se fortalece.

Talvez falte um título para a consolidação. Neste ano, o Toronto levou ao Canadá a taça da MLS pela primeira vez. Quem sabe ela não para em Vancouver em um futuro breve?

Se ela não vier, não tem problema. “Tudo isso é sobre pessoas, sobre a comunidade, sobre fazer as coisas juntos”, declara Zach.

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