VAR em campo: é possível emoção e justiça andarem lado a lado?

O SISTEMA QUE TEM GERADO POLÊMICAS PELO MUNDO

Carlos Garcia | SP

Londres, 17 de abril de 2018. Manchester City e Tottenham protagonizam um dos mais elétricos embates de todos os tempos em um jogo de quartas-de-final de Champions League. Aos 21 minutos do primeiro tempo o placar já apontava 3×2 para a equipe do Manchester, que precisava de uma vitória por pelo menos dois gols para conseguir uma vaga na semifinal. O gol veio com Aguero, aos 13 do segundo tempo, mas o Tottenham conseguiu o terceiro gol com Llorente aos 28. A partir daí o que se viu foi um eletrizante ataque contra defesa e a vantagem no marcador parecia questão de tempo. Até que aos 48 minutos da etapa final, com ares de heroísmo, Aguero passou bola na área e Sterling mandou com tudo para balançar a rede. Festa azul no Etihad Stadium, que veio abaixo.

Mas o árbitro de vídeo segurou a euforia, que se transformou em tensão. Guardiola, seus comandados e torcida engoliram o grito e pausaram a comemoração pela classificação. Estavam todos incrédulos, afinal aquele era o gol que o City precisava se classificar, pois faltava apenas um minuto de jogo. “No goal. Offside”, foi a mensagem que apareceu no telão. O tento estava anulado pois Aguero estava impedido no início do lance. Não havia mais festa e nem carnaval. A alegria deu lugar ao silêncio e o momento mais sublime do futebol perdeu para uma decisão pautada por um frio software de imagens que mostrou um pé de Aguero à frente da zaga adversária. Quem perde? O City ou o futebol?

Árbitro turco Cuneyt Cakir mostra coragem para anular gol do City aos 48 do segundo tempo (foto: Reuters)

O outro lado

Agora vamos dar vida a um personagem fictício. Estamos falando de um torcedor do Tottenham, clube que arrasta uma média de 70 mil pessoas para os jogos em seu estádio e cuja torcida já proporcionou momentos belíssimos nas arquibancadas, incluindo a festa realizada no jogo de ida contra o próprio City. Apaixonado que é, nosso personagem fictício estava nas arquibancadas empurrando o time naquela vitória e também em meio aos poucos torcedores do Spurs que se acotovelavam apertados no Etihad.

E o jogo de volta não foi fácil para ele. Torcedor apaixonado não aguenta decisão com cinco gols em 21 minutos, é sofrido demais. Aquele quarto gol do City foi um balde de água fria para ele, afinal o Tottenham tinha chegado tão longe para isso? Já o gol de Llorente quase o matou de uma felicidade que foi logo foi substituída por tensão extrema com a pressão do rival. Até que aos 48 minutos do segundo tempo, com ares de crueldade dignos dos grandes vilões, Aguero passou bola na área e Sterling mandou com tudo pra dentro do gol. Acabou. Aquele ingresso suado, aquela festa linda no jogo de ida, o aperto no jogo de volta, todo o sonho de alguém que vê seu clube ir tão longe na competição mais importante do planeta… era o fim de tudo aquilo. A festa acabou, o carnaval acabou, afinal faltava apenas um minuto de jogo.

Mas o árbitro de vídeo manteve esperança do nosso personagem, afinal havia uma possível irregularidade no gol. A tensão precedida pelo silêncio agora dava lugar ao pouco de otimismo que lhe restava. Foi sofrido. O coração quase saiu pela boca. “No goal. Offiside”, foi a mensagem que ele viu no telão enquanto já não sabia mais o que fazer. Era hora de festa, afinal faltava apenas um minuto, o adversário estava desanimado e o quinto gol do City não havia sido validado. A jogada começou em impedimento. Acabou. É festa, é carnaval, é hora de comemorar. A felicidade tomou conta do coração do nosso personagem fictício, que já não cabia mais dentro de si, tamanha era a felicidade de ver seu clube na semi-final da Champions depois de 57 anos.

É justo questionar?

Mauricio Pocchetino, técnico do Tottenham, comemora classificação após anulação de gol de Sterling

Houve quem dissesse, até mesmo na mídia, que nem o torcedor mais fiel do Tottenham estava feliz por completo, afinal não seria essa a forma mais interessante de se vencer um confronto como este. Aí te convido a, na sua imaginação, entrar comigo em um tradicional pub da região norte de Londres. Em seu primeiro contato visual com o ambiente você verá nosso personagem fictício, aquele que tanto se emocionou nos dois confrontos, abraçado a tantos outros que como ele estão completamente eufóricos. Quer tentar perguntar a ele se sua felicidade é completa? Desista, pois ele está totalmente embriagado. Essa foi a forma que ele escolheu para extravasar tanta felicidade. E essa felicidade se mostrou possível porque um gol irregular aos 48 minutos do segundo tempo não foi marcado. Simples assim.

Aí você decide qual história você compra: a dó que hoje todos sentem do torcedor do City ou a felicidade do torcedor do Tottenham que viu seu time escapar de uma injusta eliminação.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*