Zidane está de volta, mas está preparado para a revolução que o Real Madrid precisa?

TÉCNICO TERÁ UM GRANDE DESAFIO PELA FRENTE

Foto: Reuters

Por Rodrigo Rebelo, RJ

– Alô?
– Alô, Julen? Zizou falando, meu consagrado, tudo bom?
– Tudo ótimo, mister, tô aqui de boas esperando o começo da Copa do Mundo.
– Então… Era sobre isso que eu queria falar… Estou saindo do Real Madrid e você é o nome da vez, fechou?
– …
– Beleza, então, agora te vira.

É claro que esse diálogo não aconteceu, de fato, mas bem que poderia. Em junho do ano passado, pouco antes do início da Copa do Mundo, o então treinador da seleção espanhola era anunciado como novo comandante do Real Madrid, após a bombástica saída de Zinédine Zidane. Não houve demissão, não houve briga entre técnico e diretoria. O ídolo merengue apenas achava que era hora de partir.

“Este time deve seguir vencendo e precisa de mudança. Após três anos é preciso de outro discurso, outra metodologia de trabalho e por isso tomei esta decisão”

A notícia vinha após três títulos consecutivos da Champions League – com direito a outro dois anos antes, ainda com Carlo Ancelotti no comando e tendo o mesmo Zidane como seu assistente e pupilo. O que Zizou não imaginaria quando pediu as contas é que apenas 284 dias após sua saída seria novamente anunciado como treinador da equipe principal do Real Madrid.

Por mais momentos como este (Foto: Reprodução Internet)

Além da saída de Zidane, os madridistas enfrentaram um adeus ainda mais traumático. Cristiano Ronaldo achou que era hora de respirar novos ares, conquistar a Itália com a Juventus e depois partir pra mais 24 territórios à sua escolha e deixou o time merengue. Nenhum time perde o seu comandante e o melhor jogador de futebol do planeta (desculpa, Modric) na mesma temporada e sai impune. Não seria diferente com o Real Madrid.

Chegou Julen Lopetegui e, com ele, a ideia da renovação e utilização intensa dos excelentes jovens jogadores do elenco madridista. Lopetegui, que foi treinador do Real Madrid Castilla antes de comandar as divisões de base da seleção espanhola, gosta de trabalhar com jogadores jovens e tem uma predileção por atletas que controlam bem a bola e cadenciam o jogo, uma característica dos meias madridistas. Pena que a esperança durou pouco e o trabalho do espanhol foi desastroso. Se sua demissão foi precipitada ou não é outra história, mas uma goleada para o maior rival antecipa a vida útil de qualquer treinador. A solução, então, foi caseira: a diretoria efetivou Santiago Solari, ex-jogador e campeão com o Real Madrid, e que começara sua carreira de treinador na base merengue, em 2013. Uma solução semelhante a que foi adotada quando Zidane assumiu o time no lugar de Rafa Benítez. A diferença é que Solari não é Zidane. Nem de longe.

SUDERJ informa: entra Zidane, sai Solari (Foto: Reprodução Internet)

O time apresentou algumas pequenas evoluções, verdade seja dita. Mas muito mais pela união dos jogadores e vontade de não protagonizarem uma campanha vergonhosa do que propriamente por méritos do treinador argentino. Após ser eliminado da Copa do Rei e Champions League e ter permitido que o Barcelona se afastasse de vez na briga pelo título espanhol, com uma derrota dolorosa em pleno Santiago Bernabéu, Solari também não resistiu e foi devidamente encaminhado pro departamento pessoal de Valdebebas.

E, como numa viagem no tempo, o mundo presenciou mais uma apresentação de Zinédine Zidane no Real Madrid – a segunda como treinador – em uma época na qual as especulações sobre a volta de José Mourinho se intensificavam a cada dia, o que seria um movimento totalmente equivocado da diretoria.

Zidane já estava na história do Real Madrid como jogador. Além ter ser um dos maiores gênios do esporte, ainda foi o protagonista de La Novena – a nona conquista de Champions League do time -, no ano do seu centenário, com um gol que entrou pra história como um dos mais bonitos da competição. Não satisfeito com isso, nas três temporadas em que esteve no comando do time, tornou-se um dos treinadores mais vitoriosos, conquistando, entre outros títulos, três Champions consecutivas – algo que nenhum outro técnico jamais fez.

Mas como isso aconteceu? Zidane é realmente um treinador acima da média, capaz de conquistar o mundo novamente com o Real Madrid?

A sinergia entre Zizou e Real Madrid é algo fora do comum. Mas ela se deu muito mais pelo treinador em questão ser Zinédine Zidane do que propriamente por seus predicados como comandante. Isso não quer dizer, em absoluto, que ele é um profissional ruim, sem qualquer qualidade. Mas Zidane é uma divindade em Madrid. Uma divindade do futebol. Um atleta e uma pessoa extremamente admirada pelos jogadores, que chegou a jogar com dois deles – Sergio Ramos e Marcelo. A devoção dos jogadores os fez correr dobrado. Aquele que estava no banco não era apenas um treinador. Era um amigo, alguém que falava a língua deles e, ao contrário de seu antecessor (Benítez), mantinha uma relação mais do que positiva com todos do elenco.

Isso ficou mais evidente em 2017-18. A má fase do Real Madrid não começou agora. A última temporada de Zidane como treinador do Real Madrid foi recheada de altos e baixos – principalmente baixos – que foram eclipsados pela conquista da 14ª orelhuda. O time se tornou previsível, os adversários aprenderam como a equipe jogava e Zizou não demonstrava grande variação tática ou ideias para reverter situações desfavoráveis em campo. Essa foi uma conquista muito mais na raça do que na técnica. A frase da moda que diz que “o time soube sofrer” foi a mais usada pelo francês e pelos seus comandados durante todo aquele período, e com razão, porque o Real Madrid, de fato, soube sofrer e renascer em diversos momentos da Champions League. Algo que só foi alcançado porque, além da enorme identificação do time com a competição européia, os jogadores estavam ao lado de Zidane. Era matar ou morrer por ele. E eles mataram. Mas chegaram no limite.

Qualquer exercício de futurologia seria mero oportunismo nesse momento. Ainda assim, é difícil imaginar outra fase tão estupenda do Real Madrid como a vivida recentemente. Não há mais Cristiano Ronaldo, peças importantes estão envelhecendo e a renovação será inevitável. Algumas feridas tendem a ser expostas e divórcios traumáticos podem acontecer. E, sem dúvida alguma, Florentino Pérez dará a chave do cofre pro francês ir às compras.

O treinador Zinédine Zidane mostrou-se, sim, em evolução, mas ainda não 100% preparado para comandar um gigante. Já a divindade Zidane tira isso de letra. E o sucesso desse novo Real Madrid depende diretamente da mescla dessas duas facetas de Zizou.

1 Comentário em Zidane está de volta, mas está preparado para a revolução que o Real Madrid precisa?

  1. Não torço para Madrid, mais para o Barça continuar forte precisamos de um concorrente a altura kkkkkkk.
    Falando sério e querendo ajudar os amigos, tem que trazer o Hazard, Mbappe e Harry Kane.
    Manda o Balé e o Benzama embora.
    Obs: Solare é maluco de não contar com Isco.

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  1. Consagrados em campo, ídolos devem virar técnicos? - Cenas Lamentáveis

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